Casaco de comandante do ICE vira símbolo de batalha por imigração por semelhança com uniforme nazista
Vestuário é tópico de discussão desde 2025 e recebeu críticas de governador democrata; especialista atribui uso em episódios pontuais a provocação, que segue linha de Trump para comunicar poder
Desde que os agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) começaram a se espalhar pelas cidades americanas, seus uniformes têm sido pontos de discórdia. As roupas se tornaram símbolos da batalha sobre as políticas de imigração e deportação do governo Donald Trump, sua aplicação e o debate sobre se essas políticas são uma ferramenta de autoritarismo ou uma reação justificada a uma situação insustentável.
As máscaras faciais (ou bandanas, polainas ou cachecóis) usadas pelos agentes, que os escondem dos olhos do público — ou os protegem, dependendo do ponto de vista — foram o ponto inicial do conflito.
Agora, à medida que a situação em Minneapolis se agrava e surgem cada vez mais imagens de manifestantes confrontando agentes do ICE, outro símbolo ressurge: o sobretudo usado por Gregory Bovino, o oficial responsável pelas operações da Patrulha da Fronteira do presidente Donald Trump.
Conhecido como sobretudo, o longo casaco verde-oliva de abotoamento duplo, com lapelas largas, grandes botões metálicos, dragonas e insígnias nos braços, destaca-se em meio ao mar de jaquetas bomber e coletes táticos usados pelos agentes do ICE ao redor de Bovino. É impossível ignorá-lo. E tornou-se um ponto crucial na discussão online sobre o ICE, em parte porque seus antecedentes históricos também são impossíveis de ignorar.
Afinal, fazia parte do uniforme militar clássico da Primeira e da Segunda Guerra Mundial. Para qualquer pessoa que tenha visto fotos dessas guerras, o que inclui praticamente qualquer pessoa que tenha cursado História na escola, a conexão é quase imediata.
E embora o sobretudo tenha sido usado por oficiais de ambos os lados das guerras mundiais, incluindo o general americano Douglas MacArthur, ele está intimamente associado ao Exército alemão sob o comando de Adolf Hitler. Assim, não demorou muito para que o sobretudo de Bovino se tornasse, para muitos espectadores, um símbolo não apenas de militarização, mas também de tirania, como vários comentaristas prontamente apontaram.
O sobretudo tornou-se assunto de discussão no final do ano passado, quando Bovino liderou operações do ICE em Los Angeles e Chicago, e o Departamento de Segurança Interna publicou um vídeo ao som de “Viva la Vida”, do Coldplay, com cortes rápidos de Bovino em campo e a legenda “Não Seremos Parados”. Entre as imagens, várias cenas de Bovino com seu sobretudo.
Quase imediatamente, começaram as comparações com a Gestapo. Até o governador democrata da Califórnia, Gavin Newsom, entrou no debate, publicando no X: “Se você acha que os apelos ao fascismo e ao autoritarismo são um exagero, pare e assista a este vídeo”.
Tricia McLaughlin, secretária-adjunta de assuntos públicos do Departamento de Segurança Interna, escreveu em um e-mail que o casaco fazia parte do “uniforme de inverno padrão da Patrulha da Fronteira”. Bovino o usa “desde 1999”, escreveu ela, observando que o casaco já estava disponível para os agentes naquela época. No entanto, num documento de 2025 que detalha os Padrões de Uniforme e Apresentação Pessoal da Patrulha da Fronteira, o sobretudo não consta como parte de nenhum uniforme oficial.
“Há debates legítimos sobre políticas públicas, mas fabricar indignação falsa e comparar as forças da lei aos nazistas ou à Gestapo é incrivelmente perigoso”, continuou McLaughlin, atribuindo o aumento de agressões contra agentes da lei, em parte, a essa questão.
O problema, disse Harold James, professor de história da Universidade de Princeton, não é necessariamente o casaco, que, como muitas peças de vestuário militar, foi apropriado pela moda há muito tempo, mas a maneira como Bovino o usa e o contexto em que é usado.
“Usar o sobretudo para confrontar multidões com apoiadores armados, juntamente com o cabelo curto de Bovino e as roupas (aparentemente) pretas ou escuras por baixo, evoca inconfundível a imagem de ditadores e da década de 1930”, disse James em um e-mail. Acessórios como sapatos de couro preto e emblemas com detalhes dourados completam o visual, segundo ele, “com a intenção de intimidar e também provocar”.
Embora o Departamento de Segurança Interna tenha protestado regularmente contra as comparações com a Alemanha nazista e pedido que as pessoas moderem a linguagem, Bovino não parou de usar seu sobretudo — nem o cachecol e os sapatos pretos que o acompanham. Embora às vezes tenha usado o uniforme padrão do ICE desde o início dos protestos em Minneapolis, ele também apareceu com o sobretudo, apesar da interpretação que vinha sendo feita do visual.
Nisso, ele se alinha com a clara adesão da administração Trump ao poder do vestuário como ferramenta de comunicação, seja o boné MAGA ou o próprio terno azul patriótico, camisa branca e gravata vermelha de Trump, que muitos dos homens de seu gabinete e de seu partido adotaram para melhor demonstrar sua lealdade.
Bovino também está emulando a abordagem de sua chefe, Kristi Noem, que passou por uma espécie de transformação antes de entrar para o governo e costuma realizar coletivas de imprensa vestindo uniforme da imigração ou chapéu de caubói, como se quisesse enfatizar a natureza selvagem do Velho Oeste da fronteira que governa. Como governadora da Dakota do Sul, ela chegou a fazer vídeos de marketing nos quais vestia roupas de várias profissões — higienista dental, policial rodoviário, eletricista — para demonstrar que seu estado estava aberto para negócios.
É possível que Bovino, ao usar o casaco e os acessórios facilmente reconhecíveis de um homem forte à moda antiga, esteja se dirigindo a um público muito específico. Trump adora homens de uniforme, como demonstrou seu desfile militar. Mesmo que, aparentemente, esse uniforme faça com que algumas pessoas pensem imediatamente na SS.
