Joia do Vasco vendida à Inter de Milão, Alberoni recorda carreira com 14 clubes em 11 anos

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Ex-volante, promessa das seleções brasileiras de base, treinou com nomes como Batistuta, Crespo, Messi, Agüero e apareceu no DVD de Romário; leia a entrevista

 

 

Em meados de 2002, pouco tempo depois de completar 18 anos, uma das grandes promessas do Vasco no início do século 21 deixava o clube para ganhar o mundo. Na época, uma proposta da Inter de Milão, clube que tinha Ronaldo Fenômeno, tirou Alberoni de São Januário.

Qual jovem recusaria uma abordagem do poderoso clube italiano? O sonho de jogar na Europa e a oferta da Inter, que prometeu pagar 100 vezes mais o que o volante recebia no Vasco, fizeram o jogador trocar o Brasil pela Itália. Ele não vingou como todos esperavam.

A falta de orientação nos primeiros anos como atleta profissional acabou prejudicando a carreira de Alberoni, que rodou o mundo e, mais tarde, em 2006, realizou o sonho de defender o Vasco profissionalmente. Foram 14 clubes em 11 anos. O ge achou o ex-volante, que hoje gere projetos sociais em Niterói e atua como empresário de jogadores.

 

De Chico a Alberoni

 

Francisco Terra Alberoni, cria da geração 1984 do Vasco, tinha como vantagem o fato de ter passaporte italiano. Isso o projetava desde cedo para fora do Brasil e acabou norteando sua carreira. A começar pela “mudança” de nome. Chico virou Alberoni nos primeiros anos de base.

– Meu apelido sempre foi Chico e virou Alberoni pela possibilidade de transferência para fora do país. Quem me conhece da infância me chama de Chico, quem me conheceu depois me chama de Alberoni. A mudança aconteceu na minha primeira convocação para a seleção de base. O estafe da CBF falou: “Você agora não é mais Chico, é Alberoni” – disse o ex-atleta ao ge, e completou:

– Eu só fui entender depois que, por eu ter o passaporte e fazer parte da comunidade europeia, o nome fazia mais sentido para esse mercado. E, em caso de transferência, eu não ocuparia a vaga de um estrangeiro e teria mais chance de ter espaço. Depois disso, todas as notícias e transmissões já eram como Alberoni. Eu gostei, porque sou um cara muito família e acabei levando o nome da minha família.

E foi na seleção brasileira que o jovem jogador do Vasco aumentou o status de joia. Aos 17 anos, era titular da Seleção da categoria e uma das maiores promessas ao lado de Diego, do Santos. Com a camisa vascaína, sua geração acumulou títulos nos torneios de base. Morais, Wescley, Coutinho e Anderson eram outros nomes daquela “leva” que criou altas expectativas.

– Ficamos quatro anos sem perder. Os resultados fizeram a gente ter credibilidade no clube e me fizeram chegar às seleções de base. A Seleção talvez me fez ser uma promessa maior não só no Vasco, mas no futebol carioca e até brasileiro.

– Minha posição nunca foi de se destacar muito. Eu era volante, cabeça de área, mas gostava de sair, chegar na frente, chutar. E são poucos volantes canhotos. Fui campeão do Sul-Americano em 2001, fui para o Mundial depois, e acho que foi a chance de eu ratificar esse rótulo de promessa do Vasco. Fiz três gols nesse Sul-Americano e voltei para o Vasco mais valorizado. Comecei a virar realidade. Minha experiência internacional com a Seleção foi muito boa e me deu projeção.

Alberoni (à direita) era uma das promessas do Vasco no início deste século — Foto: Arquivo pessoal

Alberoni (à direita) era uma das promessas do Vasco no início deste século — Foto: Arquivo pessoal

 

Arrivederci, Vasco!

 

Enquanto os colegas subiram para o time profissional e passaram a jogar com o então técnico Antônio Lopes, Alberoni deixou o Vasco antes de estrear pela equipe principal. De origem humilde e ansioso para realizar o sonho da família, aceitou proposta da Inter de Milão, que não cumpriu a palavra.

– Eu não tinha empresário na época, talvez tenha faltado uma orientação. Foi uma decisão minha e da minha família. As pessoas devem achar que eu era problemático (risos). Poderia ter sido diferente, mas não me arrependo das minhas escolhas. Dificilmente um jovem não aceitaria ir para a Inter de Milão naquela época. A proposta era de cerca de 5 mil euros por mês – isso dava quase R$ 20 mil na época. Eu ganhava um salário no Vasco (o salário mínimo em 2002 era de R$ 200). Quando cheguei lá não foi o combinado.

– Eu morava com dois australianos, um brasileiro e dois nigerianos, um deles era o Oba Oba Martins. Eu recebi uma correspondência e era meu contrato. Era um contrato de quatro anos, ganhando como se fosse o salário mínimo italiano, que era de 700 euros. Eu comecei a ficar desesperado. Em Milão, frio, a Coca-Cola cara, o cartão pra ligar pra namorada caro, custo de vida muito alto. Eu tinha uma estrutura familiar, mas mais do que isso, me chateou não terem cumprido a proposta. Foi tudo nas escuras. A sorte é que isso não me afetava dentro de campo.

Alberoni foi vendido para a Inter de Milão com 18 anos — Foto: Arquivo pessoal

Alberoni foi vendido para a Inter de Milão com 18 anos — Foto: Arquivo pessoal

Camisa da Inter virou quadro na casa de Alberoni — Foto: Arquivo pessoal

Camisa da Inter virou quadro na casa de Alberoni — Foto: Arquivo pessoal

Alberoni treinava no time B da Inter. A qualidade técnica do volante, cria do futebol brasileiro, o fez atuar e corresponder como camisa 10 quando o treinador precisava. Na equipe principal, ele via e bebia da fonte de Crespo, Batistuta, Materazzi, Di Biagio, Toldo… Ele e o nigeriano Oba Oba Martins eram sempre utilizamos pelo técnico Héctor Cúper.

– Eu dei o azar de o Adriano e o Ronaldo terem ido embora. Não tinha nenhum brasileiro na minha época, e isso ajuda muito na transição. Fiquei um ano nessa situação e falei: “Não dá, vou voltar”. Estava muito desiludido com italiano, não acreditava mais em ninguém.

Treino com Messi e seis clubes em dois anos

 

Ao sair da Inter, Alberoni passou a viver como cigano. Entre 2004 e 2006, passou por três países e seis clubes diferentes: Bahia, Barcelona B (Espanha) – onde treinou com Messi -, Independiente (Argentina) – onde treinou com Agüero -, Paraná, Avaí e UD Leiria (Portugal). Pouco jogou no período.

– Voltei para o Brasil, fiz o vínculo com meu primeiro empresário, que ficou comigo durante anos. Ele teve uma desavença com o presidente do Bahia na época, eu fiquei lá poucos meses e fui para o Barcelona. Eles me conheciam por causa da seleção brasileira e nem pensaram duas vezes quando meu agente me ofereceu lá.

– Acabou que deu outro problema, e ele não foi lá assinar o contrato no tempo certo. Eu fiz uma parte da pré-temporada com o Messi, ele estava na transição para o profissional. Na época, eu dei um ultimato “maluco” que se o contrato não fosse assinado até tal data eu iria para o Independiente, da Argentina, que fez uma proposta para a minha família. Acho que faltou esse planejamento de carreira para mim. Leiria, Independiente e Barcelona eu fui, mas não joguei porque sempre deu algum problema extracampo. Não cumpriram o combinado.

Alberoni guarda lembrança do título sul-americano com a Seleção sub-17 — Foto: Arquivo pessoal

Alberoni guarda lembrança do título sul-americano com a Seleção sub-17 — Foto: Arquivo pessoal

 

No DVD do Romário

 

Em 2006, Alberoni voltou ao Vasco para realizar o sonho de defender o clube do coração profissionalmente. Foi treinado por Renato Gaúcho e conviveu com Romário, com quem acabou criando um vínculo eterno por causa de um passe.

– Estou no livro e no DVD dos mil gols do Romário. Ele menciona todas as assistências, e eu dei um passe para ele no Carioca de 2006, contra o América, no Estádio Edson Passos. Mais um sonho realizado, eu era criança e via o Romário jogar. Depois joguei com ele.

Por Emanuelle Ribeiro, ge — Rio de Janeiro

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