Presença de Bruno em jogo da Copa do Brasil é um circo macabro

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Goleiro tem direito à ressocialização, mas volta ao futebol, em uma competição nacional, passa o incômodo do assassino que retorna à cena do crime

 

 

O goleiro Bruno, condenado a 22 anos de prisão pelo assassinato de Elisa Samúdio, disputou nesta quinta-feira um jogo de Copa do Brasil, a segunda principal competição do futebol brasileiro. Defendeu o Vasco do Acre na eliminação nos pênaltis para o Velo Clube-SP, após empate por 1 a 1 no tempo normal. Pegou duas cobranças e converteu uma.

Antes do jogo, os titulares do Vasco-AC, Bruno entre eles, posaram para foto segurando as camisetas de colegas de elenco impedidos de jogar. Motivo: estão detidos (um preventivamente, outros três em prisão temporária) por suspeita de estupro de duas mulheres. Eles negam o crime.

Bruno está em liberdade condicional desde 2023. Sua presença em campo é lícita. Ele tem o direito de jogar futebol, qualquer clube tem o direito de contratá-lo.

Outros fizeram antes do Vasco-AC. Desde 2014, quando ainda estava em regime fechado, Bruno coleciona rápidas passagens por times pequenos. O enredo costuma se repetir: o goleiro é anunciado, o clube ganha uma exposição que não costuma ter, torcedores protestam, patrocinadores se afastam, ele joga algumas partidas (ou nem isso) e vai embora.

Não deve ser diferente agora. Seria inocência acreditar que o Vasco-AC, munido da ironia de ser homônimo do grande rival do Flamengo, tenha contratado o goleiro por acreditar no potencial de um jogador de 41 anos que não pratica futebol profissionalmente, de forma regular, há uma década e meia. O que Bruno oferece não são defesas: é o circo.

Cada volta do goleiro aos campos traz a tiracolo o argumento da ressocialização. É um bom debate. A pessoa que cometeu um crime deve ter direito a se recuperar – é um ato civilizatório. Não se trata de impedir que o goleiro reconstrua sua vida, trabalhe, faça uma faculdade, constitua uma família.

Mas é preciso lembrar que o crime pelo qual Bruno foi condenado esteve diretamente ligado à fama que ele conquistou no futebol. Foi um crime de poder: o jogador rico, famoso, campeão nacional, ídolo da maior torcida do Brasil, cotado para a Seleção, se livrou da mulher que, para ele, representava um incômodo – um estorvo no universo que ele, com seu talento, havia criado.

E Bruno jamais deu sinais claros de arrependimento, de respeito pela vítima. Em suas entrevistas, questionou a condenação, minimizou sua participação, disse que a situação saiu de seu controle – como se o assassinato independesse dele.

Por tudo isso, vê-lo de volta ao futebol, de volta a uma competição nacional, de volta à arena onde constituiu sua fama e seu poder, passa o incômodo do assassino que retorna à cena do crime. O circo se torna macabro. E vira mais uma agressão à vítima que, de tão desumanizada, jamais teve seu corpo encontrado.

 

Por Alexandre Alliatti

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