Royal blinda a mente e revela conselho de Filipe Luís no Flamengo: “Confio mais do que você mesmo”

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Emerson Royal estava há seis meses sem jogar quando chegou ao Flamengo, em julho de 2025. Recuperado de uma lesão muscular significativa na panturrilha direita, o lateral voltou ao país natal depois de sete anos na Europa e precisou se readaptar ao futebol brasileiro.

Nos cinco meses seguintes, lidou com duras críticas e trabalhou dobrado para mudar de realidade em 2026. Iniciou a volta por cima com boas atuações nos últimos dois jogos, e o momento passa pelo acompanhamento psicológico e pela confiança que tem no próprio potencial.

— Eu fiquei quatro meses fora pela lesão e vim sem fazer pré-temporada. Chego no Brasil em um momento em que o Flamengo já está disputando coisas grandes, partidas importantes e, sem ter tempo de treinar muito, acabo tendo partidas mais ou menos, algumas boas, outras ruins, um período de muita oscilação em que recebo muitas críticas. Essa temporada é diferente, tive a oportunidade de fazer uma pré-temporada em casa, tive pouco tempo de férias, mas, nesse pouco tempo, me dediquei mais ainda na parte física, trabalhei bastante para poder iniciar a temporada bem. Consegui e pretendo continuar assim — disse Royal em entrevista exclusiva ao ge.

— O futebol brasileiro evoluiu muito depois que eu saí daqui. Essa minha volta exige adaptação, preparação, concentração e muitas outras coisas. É o que eu procurei fazer. No começo tive mais dificuldade, mas minha carreira fala por si só. Passei por grandes clubes, eu sei do meu potencial e isso é o mais importante: eu saber quem eu sou. Independentemente do que falam, eu sempre mantive minha cabeça blindada porque eu sei do meu potencial. Internamente, sempre falei com os amigos e com o pessoal do clube: “Pode confiar, porque eu sei quem eu sou, eu sei do meu potencial”. O que falam fora vai repercutir para fora, a minha confiança essas coisas não vão afetar. Quando eu me sentir bem, uma hora ou outra isso vai mudar. E eu estou trabalhando para que isso continue melhorando, e sempre tem margem para melhorar — completou.

O lateral-direito teve passagem curta pelo futebol brasileiro, defendendo a Ponte Preta e depois o Atético-MG. Depois de apenas dois anos jogando profissionalmente, Royal se transferiu para o Real Betis (Espanha). Passou também por Barcelona, Tottenham (Inglaterra) e Milan (Itália) antes de ser contratado pelo Flamengo por 9 milhões de euros (R$ 58 milhões). No ano passado, fez um gol e deu uma assistência em 19 jogos. Em pouco tempo, levantou as taças da Libertadores e do Brasileiro.

— (Sensação de ganhar) foi maravilhosa. Não tenho palavras para descrever, até mesmo porque eu nunca tinha ganhado um título de tanta expressão assim na minha carreira, e ganhar uma Libertadores e um Brasileiro em cinco, seis meses é algo inexplicável.

As críticas obviamente machucaram o jogador nos últimos meses, mas também serviram de motivação para buscar seu espaço no elenco estrelado do Flamengo. Para isso, Emerson Royal contou com a ajuda de alguém que está na posição de maior pressão no time, o técnico Filipe Luís.

— O Filipe é um cara ímpar. Eu não o conhecia pessoalmente antes de vir para cá, só o via jogar, gostava muito de como ele jogava, e ele me ajudou muito nesse processo. Ele conversava bastante comigo, me blindava também, me apoiou durante boa parte desse processo de críticas. Mesmo com as críticas, ele me colocava para jogar, me dava oportunidade e falava para mim: “Royal, acho que confio mais em você do que você mesmo” — contou o lateral, que completou:

— Eu respondia: “Aí também não (risos), porque eu confio para caramba em mim, mas eu sei da confiança que você tem em mim, obrigado por isso. Eu vou devolver isso de alguma forma, quando eu me encontrar fisicamente, encontrar confiança, eu vou entregar o que você espera de mim”. Não estou 100% ainda, posso entregar muito mais, vou continuar trabalhando. Ele vem me ajudando nisso, principalmente na parte defensiva. Eu não tenho outro caminho se não for o trabalho.

Royal recebeu carinho dos colegas em Flamengo x Sampaio Corrêa — Foto: Adriano Fontes/Flamengo

Royal recebeu carinho dos colegas em Flamengo x Sampaio Corrêa — Foto: Adriano Fontes/Flamengo

 

O atleta de 27 anos confia no esforço para chegar ao auge no Flamengo. Durante as férias, treinou à parte e se apresentou bem fisicamente. No início de temporada abaixo do time, Royal tem aproveitado a vantagem física para se destacar. Esteve entre os melhores nos jogos contra Vitória e Sampaio Corrêa. Neste último, contribuiu com duas assistências e foi abraçado pelos colegas:

— A gente assiste ao jogo, vê o atleta ali durante 90 minutos, mas não vê o que está por trás disso. Como o jogador é como ser humano. Eu sou uma pessoa que é muito amiga de todo mundo, converso com todo mundo, apoio, trabalho demais, demais, demais. Sou um cara muito trabalhador. Trabalho dentro do clube, trabalho fora, cuido da minha alimentação, cuido da minha cabeça, faço psicólogo. Sou um cara que mereço isso.

— Pelo trabalho eu mereço uma recompensa. Os jogadores sabem dessa minha constância, desse meu desempenho, desse meu trabalho diário, o grupo tem um carinho por mim. Fora os jogadores, o pessoal do nosso entorno sempre fala que torce para que eu vá bem porque eu mereço. A pessoa vê que você é um cara sério quando tem que ser sério, mas é um cara divertido, que apoia os companheiros e as pessoas do clube, e essa energia boa ajuda com que as coisas fluam.

Royal teve a chance de fugir das críticas no início do ano e recebeu propostas para deixar o Flamengo. Sair, no entanto, não foi opção para o jogador que quer realizar mais sonhos com a camisa rubro-negra. Ele tem contrato até o fim de 2028.

— Tive proposta, até mesmo antes de vir para o Flamengo, proposta de fora. Conversei com as pessoas do meu entorno e eu não queria sair agora. Tenho mais para entregar para o Flamengo, tenho que provar para mim mesmo. Eu digo sempre que não tenho que provar nada para ninguém de fora, quando você coloca essa expectativa é muito difícil porque divide opiniões. Então eu falei: eu tenho que provar para mim mesmo, tenho que mostrar o meu futebol 100% aqui e depois a gente vê — destacou o lateral-direito.

O bom momento credencia o jogador para ser titular no próximo jogo do Flamengo. No domingo, às 17h30, o time de Filipe Luís vai enfrentar o Botafogo no Estádio Nilton Santos, pelas quartas de final do Campeonato Carioca. Leia abaixo o restante da entrevista com Emerson Royal:

O que mudou no Emerson depois na experiência na Europa?

— Amadureci muito como pessoa nesse tempo que estive fora e tive a oportunidade de passar por grandes ligas. Cada liga acrescentou algo no meu jogo. Na Itália é um jogo muito tático, apesar de eu não ter tido muito tempo para trabalhar lá porque eu tive uma lesão de quatro meses, mas você aprende mais tática, como defender melhor. Na Inglaterra que, para mim, é o melhor campeonato do mundo, é um jogo de muita transição, muita força, e é o que eu tenho de muito potencial. E na Espanha, onde eu aprendi muito, é o jogo apoiado. Acho que uma das minhas principais características é o jogo apoiado e a chegada à linha de fundo. Foi uma mescla de cada liga que eu passei para poder trazer a minha melhor versão para o Brasil.

Início no Flamengo

— Sempre gostei muito do Brasil, apesar de eu ter passado muito tempo fora. Essa minha volta para o futebol brasileiro, no começo foi uma mistura de sentimentos. Foi muito intenso, consegui grandes coisas no Flamengo em pouco tempo, independentemente de todas as situações. Consegui dois títulos muito importantes, e esse era um dos meus objetivos ao voltar para o meu país, ganhar algo importante aqui dentro.

Como lida com as críticas?

— Ninguém quer isso, mas faz parte da carreira. Da mesma maneira que tem gente que critica, tem gente que fala bem. O que vende mais, o que mais se fala é das coisas ruins. Eu sempre tive a mente muito blindada quando a isso, sempre fui um cara muito forte mentalmente. Todos os lugares que passei foi assim. Sempre falo: vou dar a volta por cima, vou trabalhar, quanto mais me criticam mais combustível eu tenho e mais eu trabalho. E é o que eu venho fazendo, não tem outra saída. É fechar a cara, apertar os dentes e seguir trabalhando.

Royal em treino do Flamengo — Foto: Adriano Fontes/Flamengo

Royal em treino do Flamengo — Foto: Adriano Fontes/Flamengo

Acha que as cobranças são injustas em alguns momentos?

— Eu não acho que a palavra correta é “injusta”. A torcida tem o direito de cobrar, eles pagam ingresso, o Flamengo é a vida de muitos deles, se o Flamengo perde muitos ali não têm um dia bom. A gente tem que entender isso. Eles querem o 100%, a gente tem um elenco maravilhoso, para competir por grandes coisas, então eles vão querer o 100% sempre. Eu entendo isso, de verdade. É difícil passar por esse momento, mas eu entendo. A exigência deles é pela camisa que eu visto, eu já vim sabendo da responsabilidade. É me adaptar o quanto antes, porque em um time como o Flamengo você não tem muito tempo. É chegar e dar resultado e, se você não tem o resultado esperado, tem a cobrança. Eu levo isso com naturalidade, aconteceu com outros jogadores aqui dentro e em outros clubes. O mais importante é seguir focado e sabendo quem você é para dar a volta por cima.

O que você mudou no seu entorno para aproveitar a chance no Flamengo?

— A mente foi o que eu procurei mudar mais, porque eu sabia que isso (cobrança) poderia acontecer. Talvez eu demorei um pouco para retomar esse trabalho mental e me pegou em um momento em que estava recebendo muitas críticas. O psicólogo que trabalha comigo há um tempo me conhece muito e fala: “Royal, você precisa de mais constância nesse trabalho”. E é o que eu venho fazendo. Qualidade, físico, isso tudo vem, mas se você não trabalhar a mente também chega um momento em que você está esgotado e não consegue render. Conversei muito com ele. É ter constância, porque só assim se consegue chegar no alto nível.

Questão física e início conturbado do time

— O calendário é difícil. A gente não tem tempo, jogamos a cada três dias. Não tem tempo para trabalhar, é jogo após jogo, cada um tem uma forma de trabalhar. Eu sempre tive isso como vantagem, sempre me adaptei rápido fisicamente, voltava e estava bem em uma semana. O que me ajudou muito também é que eu trabalhei duro nas férias, isso foi o ponto principal. Já conseguimos ver uma melhora no nosso time, esse jogo contra o Vitória foi muito físico, muito difícil, que exigiu muito. A gente deu um grande passo e vamos seguir evoluindo e chegar o quanto antes na nossa melhor versão.

O que esperar do Flamengo em 2026?

— Tudo que a gente jogar a gente vai querer ganhar. A gente é o Flamengo e, a partir do momento que você coloca essa camisa, tem que entrar para ganhar tudo. Nem sempre é possível, mas vamos dar nosso melhor para seguir os passos do ano passado, se não for melhor.

Hegemonia do Brasil na Libertadores

— O futebol brasileiro era um pouco diferente. Era mais jogar e não se preocupava tanto com tática, com físico. O Filipe fala muito que o Brasileiro é o campeonato mais difícil do mundo de ganhar. É muito competitivo. Por exemplo, o que o Mirassol fez no ano passado foi inexplicável. Sempre surge um time para brigar e não há certeza sobre quem vai ganhar. O Brasil tem um campeonato agora de muita qualidade e pegou físico e tática. A partir disso, o futebol brasileiro evoluiu muito e está ganhando como está ganhando a Libertadores.

Como manter o nível para buscar a Libertadores de novo?

— Eu acho que vai muito pela humildade. Tem que ter humildade de reconhecer. A gente ganhou, foi top, muito importante, mas tem que ter a humildade de saber que a gente ganhou com muito trabalho. Se deixar de trabalhar não vai ganhar de novo. Tem que ter humildade de todo dia chegar aqui no Ninho e trabalhar firme em busca de melhora, porque só assim a gente vai conseguir ganhar outra vez.

 

Por Bruno Halpern, Emanuelle Ribeiro e Rodrigo Cerqueira — Rio de Janeiro

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