Recém-formado, filho de Nunes Marques citado por Vorcaro ostenta carreira meteórica e acumula grandes clientes

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Citado em conversas extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, o advogado Kevin de Carvalho Marques, de 26 anos, filho do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), tem uma carreira meteórica como advogado especializado em Direito Tributário. Formado no Centro Universitário IESB, de Brasília, Kevin passou no exame da Ordem dos Advogados do Brasil em fevereiro de 2024. A partir de então, assumiu casos de clientes milionários em processos que tramitam na Justiça Federal, como os grupos Refit e Petrópolis.

As mensagens de Vorcaro fazem referência a outro contrato do advogado, com a Consult Inteligência Tributária, uma consultoria aberta em 2022 por um contador de Teresina, amigo de longa data da família de Nunes Marques. A empresa recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master, conforme dados de um relatório de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão de combate à lavagem de dinheiro.

Na conversa, de agosto de 2025, o então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, diz que está faltando um pagamento à “consult”.

“Dos pagamentos está faltando a consult. Aqui”, diz Rennó, respondendo a uma mensagem de Vorcaro com o nome e contato de Kevin Marques. “Esse aí. Único ‘meu’ que faltou”, acrescentou ele. Reportagem do jornal O Estado de S.Paulo publicada em março mostrou que a Consult transferiu R$ 281,6 mil a Kevin, em 11 transferências entre agosto de 2024 e julho de 2025. No mesmo período, a consultoria recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master.

Mesada

 

Em nota, a assessoria do advogado afirmou que ele nunca prestou serviços ao Master nem recebeu dinheiro de Vorcaro, mas admitiu o recebimento da Consult, “empresa à qual prestou serviços jurídicos especializados na área tributária administrativa”. “A atuação profissional do advogado Kevin Marques em favor da Consult não tem qualquer relação com o Supremo Tribunal Federal”, diz o texto.

Um mês antes do diálogo em que avisa Vorcaro sobre o pagamento que “faltou”, em julho do ano passado, Rennó perguntou ao banqueiro se deveria manter o repasse de “500 mil mês” ao advogado. Vorcaro respondeu com “kkkk”.

Além de amigo da família, o sócio-administrador da Consult é pai do sócio de Kevin em uma outra empresa aberta em novembro de 2024, o Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária (IPGT). As duas estão registradas no mesmo endereço, em Barueri, na Grande São Paulo.

Segundo dados da Junta Comercial de São Paulo (Jucesp), a empresa tem como foco oferecer treinamentos e gestão empresarial. Em nota, a assessoria do advogado confirmou que ele é sócio do instituto, mas diz que ainda não está em atividade.

“O IPGT, de que o advogado Kevin Marques é sócio, está em fase de estruturação, sem que tenha havido qualquer operação ou movimentação financeira. O IPGT é independente da Consult, empresa para a qual o advogado Kevin Marques apenas prestou serviço”, diz a assessoria do advogado.

A carreira meteórica do filho de Nunes Marques chegou a ser explicitada em sua página na internet, que foi retirada do ar em março deste ano. O site do escritório K M (as iniciais do advogado) apontava atuação em mais de mil processos “resolvidos”, com mais de 500 clientes que “confiam em nós para proteger seus direitos e alcançar a justiça”. Em nota, a assessoria do escritório informou que a página estava numa “versão teste” e, por isso, foi removida.

“Desde o início da minha carreira, busquei me aprofundar em legislações, jurisprudências e estratégias de planejamento tributário para proporcionar aos meus clientes um atendimento de excelência e resultados positivos”, escreveu o advogado em sua autodescrição.

Entre os clientes do jovem advogado estão a Refit, que é alvo de um inquérito no Supremo por um suposto esquema bilionário de fraude e sonegação fiscal de combustíveis no Rio. Ele passou a atuar para a Refit em uma ação que questionava uma interdição da empresa realizada pela Agência Nacional de Petróleo (ANP) em conjunto com a Receita Federal, em setembro do ano passado. Segundo a coluna de Malu Gaspar, do GLOBO, Kevin entrou no caso depois que a ação chegou ao Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF-1), onde seu pai foi magistrado entre 2011 e 2020.

Em nota, a assessoria de Kevin afirmou que ele “exerce a advocacia de forma estritamente formal e regular, com atuação nos autos, peticionamento e procuração devidamente constituídos. E pauta sua atuação profissional pelo respeito às regras de impedimento e suspeição”.

 

Impedimento

 

Considerado um aliado do ministro André Mendonça no Supremo, Nunes Marques se declarou impedido, na terça-feira, de participar do julgamento que discutiria a autorização para investigar a relação do ministro Alexandre de Moraes com Vorcaro. Ele alegou que o motivo era não “impactar no cenário político eleitoral”, uma vez que é presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O posicionamento, que surpreendeu parte dos ministros, ocorreu horas depois da divulgação de mensagens citando os supostos pagamentos ao seu filho. Nos poucos minutos em que falou no julgamento, Nunes Marques defendeu o filho e negou envolvimento com o dono do Banco Master.

Por Eduardo Gonçalves, O Globo

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