A saga de Glover Teixeira: de imigrante ilegal ao sonho do cinturão do UFC aos 42 anos
Brasileiro disputa o título do peso-meio-pesado no próximo sábado, na luta principal do UFC 267, em Abu Dhabi, contra o campeão Jan Blachowicz
Por Evelyn Rodrigues, Marcelo Barone e Raphael Marinho — Las Vegas, EUA e Rio de Janeiro
Ao mesmo tempo que a história de Glover Teixeira se mistura com a de dezenas de pessoas, ela é singular. Dono de um passado digno das telas de Hollywood, o mineiro de Sobrália precisou superar muitos obstáculos, incluindo parte da vida como imigrante ilegal após fazer perigosa travessia pelo México para chegar nos Estados Unidos. No próximo sábado, dois dias depois de completar 42 anos, busca a cereja no bolo, como ele mesmo define: o cinturão do peso-meio-pesado do UFC.
Muito antes de sonhar com o confronto com Jan Blachowicz pelo título da divisão até 93kg no UFC 267, em Abu Dhabi (EAU), quando ainda tinha 19 anos, Glover embarcou em uma aventura que poderia ter custado caro. Ao receber uma proposta de um primo para emigrar para os Estados Unidos, deixou Sobrália para trás e foi em busca de vida nova.
O trajeto para entrar nos Estados Unidos passou por Colômbia e Guatemala antes de chegar em Tijuana, no México, para atravessar a fronteira, com a ajuda dos chamados “coiotes”, criminosos que vendem a travessia ilegal. Na cidade mexicana, precisaram esperar alguns dias para a neblina aparecer e dificultar o trabalho das autoridades que tentam impedir a entrada irregular de imigrantes nos Estados Unidos.
– A gente foi para a Colômbia, a gente ficou andando na rua, esperando, fizemos até uns pontos turísticos lá. Mas depois a gente atravessou para a Guatemala, ficamos numa ilha e aí atravessamos de carro passando umas balsas pro México, e atravessamos o México inteiro até chegar em Tijuana. Em Tijuana, esperamos ali a travessia pra San Diego. A travessia acho que durou umas seis horas. Atravessei no deserto acompanhando os coiotes, e foram só seis horas (de Tijuana até San Diego, nos EUA). Aí a gente já ficou em San Diego esperando o cara mandar passagem pra vir pra Connecticut. Foram 13 dias em San Diego esperando e não podia sair do quarto – disse o lutador, em entrevista para o Esporte Espetacular.
A chegada, no entanto, também teve seus percalços. Com o temor de que os coiotes colocassem algo ilegal em sua mochila – única bagagem levada por ele na viagem e que continha apenas roupas -, Glover preferiu deixar para trás e chegar sem nada nos Estados Unidos sob o pretexto de que “pra onde eu vou, roupa é barato”
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2019/x/C/wrJotAQk2bFWrOScYW7w/screen-shot-2019-05-28-at-9.56.59-pm.png)
Glover Teixeira numa entrevista ao SporTV: brasileiro venceu as últimas cinco lutas — Foto: Evelyn Rodrigues
De San Diego, ele viajou para Boston e depois seguiu para a pequena cidade de Danbury, onde vive ainda hoje. Lá, trabalhou com jardinagem na maior parte do tempo e treinava apenas musculação. Dois anos depois, pesando 120kg, um amigo lhe mostrou uma fita do UFC 1 com as vitórias de Royce Gracie e abriu os olhos de Glover para um novo mundo. E ao ser apresentado ao jiu-jítsu por um praticante da arte suave, veio o choque de realidade.
– Eu fui e peguei o cara numa gravata, o cara do jiu-jítsu que estava lá, numa gravata de porteiro, mas ele conseguiu pegar minhas costas e finalizar, e eu fiquei doido. Como é que esse cara desse tamanho conseguiu me pegar aqui? Aí eu comecei. Já sabia da academia. Quando ele me mostrou a fita, no outro dia eu entrei na academia. Comecei já focado para lutar o UFC. Assisti aos três primeiros UFC e foi ali que veio essa paixão. Nunca mais larguei. Lembro exatamente, acho que foi setembro de 2001, eu estava pra completar meus 22 anos. A galera ficava falando que eu estava meio velho, na época o Vitor Belfort já lutava, ele era um pouco mais velho que eu, mas eles falaram assim: “Esse Vitor Belfort tem 24 anos, mas o cara já é campeão, o cara começou com 6 anos. Você vai começar agora? Nunca vai ter chance”. Essas coisinhas que a gente ouve, né? – recordou.
