Análise: Pipeline de gala novamente e surpresas nas quartas de final
Irmãos Pupo e Caio Ibelli se classificam em ondas de sonho. Favoritos Slater e JJ Florence também avançam
Por Diogo Mourão — Oahu, Havaí
Este blog vai ser repetitivo, mas é impossível não voltar a falar das ondas de Pipeline na etapa de abertura da WSL World Tour 2022. Terça-feira foi outro dia de ondas de sonhos, daquelas que todo surfista desenhou no caderno da escola. Grandes, perfeitas e imponentes. Nestas condições, o Brasil é o país com mais surfistas nas quartas de final, com três classificados para o chamado Final Day, quando também são disputadas as semifinais e a final.
Alguns favoritos ficaram pelo caminho nessa terça-feira insana, como Ítalo Ferreira, que caiu para Miguel Pupo, e o australiano Jack Robinson, derrotado pelo brasileiro João Chumbinho Chianca. Em seu primeiro evento no CT, Chumbinho merece aplausos. Reconhecidamente um bom surfista de ondas tubulares e destemido, o brasileiro já tinha chamado atenção no sábado, na bateria da primeira fase. Em condições bem parecidas, ele deu um calor em JJ Florence, que suou para garantir a primeira colocação.
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Samuel Pupo, em sua estreia na elite, garantiu vaga para as quartas em Pipeline — Foto: WSL / Heff
Na terça-feira, no round de 32, Chumbinho não tomou conhecimento de Robinson, que tinha feito as melhores notas da competição e botou muita pressão no havaiano nas oitavas-de-final. O brasileiro fez a melhor onda do campeonato até então, marcando 9,87 (dois juízes deram dez) e um 6,90, para somar 16,74. JJ venceu com 17,77, com notas 8,00 e 9,77. O talento extraordinário de John John, principalmente em Pipe, onde ele é um monstro, é indiscutível, mas que ele conta com uma boa vontade extra dos juízes também é difícil contestar. A onda do Chumbinho não foi apenas um décimo melhor do que a do havaiano. Se a dele valeu 9,77, a do brasileiro teria de ser dez. Vai ser difícil tirar o título de John John jogando em casa.
Grande amigo de Chumbinho, Samuel também é estreante no CT e a dupla já mostrou em Pipe que pode fazer barulho na temporada. Samuca ainda quer mostrar mais. Antes da competição, ele conversou com Boas Ondas e admitiu que poderia encontrar dificuldades em Pipe, pois tivera poucas oportunidades de surfar a que talvez seja a onda mais concorrida do mundo. Treinar aqui é uma dureza, principalmente quando você é um novato. Fica-se horas na água para se conseguir pegar duas, três ondas.
A pouca quilometragem não impediu Samuel de surpreender. Não chegou a ter muito trabalho contra Deivid Silva na terceira fase, mas nas oitavas teve pela frente o experiente sul-africano Jordy Smith, que dera um show nas ondas de sábado e vinha de boa vitória na fase anterior. Samuca mostrou maturidade e inteligência e dominou a bateria do começo ao fim, para a alegria do irmão mais velho que vibrava na areia.
Miguel, por sua vez, é reconhecidamente um bom surfista de ondas tubulares, mas seu último bom resultado em Pipe foi em 2013, com o quinto lugar já igualado agora. Logo de manhã, Miguel, com uma ótima estratégia, soube aproveitar o momento em que ítalo quebrou a prancha para surfar suas melhores ondas. Foi soberano e despachou o campeão olímpico, que ficou pressionado após Miguel conseguir abrir vantagem, se atirou em ondas enormes, mas não conseguiu a virada.
O quê falar de Caio Ibelli? Há poucos dias estava em casa, ainda chateado com a temporada passada, quando foi um dos surfistas mais mal julgados do tour e perdeu seu lugar na elite. Ganhou a vaga com a desistência de Medina e está surfando sem pressão, repetindo sempre após as baterias que está feliz, aproveitando o momento, se divertindo com a possibilidade de surfar o melhor Pipe de sua vida. Não deu chances ao americano Griffin Colapinto na terceira fase e passou sem ser ameaçado pelo australiano Callum Robson. Ao ser lembrado pelo “People on Tour” sobre sua situação, se emocionou e chorou, numa cena emocionante.
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Caio Ibelli surpreendeu e também se garantiu nas quartas de final em Pipeline — Foto: WSL / Heff
Pelo menos um brasileiro estará nas semifinais, pois Ibelli e Samuca se enfrentarão em uma das quartas-de-final, numa bateria sem favoritos, com dois surfistas que estão soltinhos na marola, opa, na marola não, né, nas morras de até quatro metros:
– A sensação de dominar a onda em Pipeline é como se estivesse preso numa jaula com um leão, que está tentando te pegar. Você tem de dominar o leão com graça. A parte mais difícil é fazer isso de um jeito bonito, para mostrar aos juízes que você está confortável numa situação em que poucas pessoas ficam confortáveis – comparou Ibelli, que já conseguiu o seu melhor resultado em Pipe ao chegar às quartas, garantindo no mínimo o quinto lugar.
Miguel Pupo disputará uma vaga nas semifinais com o surpreendente Lucca Mesinas, que praticamente nem precisou disputar sua bateria contra o costarriquense Carlos Muñoz, que deslocara o ombro esquerdo na bateria anterior e não conseguiu entrar no mar para competir. Em teoria, Pupo entra como favorito. É mais experiente, conhece bem as ondas de Pipe, mas nesse campeonato cheio de supresas…
O que não foi surpresa é a presença de John John e Slater nas quartas-de-final. Como estão em lados opostos da chave, ainda podem fazer uma final dos sonhos dos organizadores. Slater conseguiu uma virada espetacular contra a jovem sensação havaiana Barron Mamyia com um 9,23 no último segundo e pode chegar a seu oitavo título em Pipe, próximo de completar 50 anos, dia 11 de fevereiro. É muito impressionante a conexão de Slater com Pipe. Nas quartas, o cara que já foi chamado de Superboy americano e hoje podemos chamar de Supersênior terá pela frente o japonês Kanoa Igarashi, que teve uma atuação de certo modo surpreendente nestas condições pesadas.
John John também tem sobrado aqui, vencendo todos os três últimos campeonatos disputados no quintal de sua casa. Para chegar à semifinal, porém, ele terá de passar pelo também havaiano Seth Moniz, que vinha fazendo excelentes baterias, até as oitavas-de-final. Num dos poucos momentos em que o mar ficou um pouco confuso e as ondas fechando, ele precisou de apenas 8,0 pontos para vencer Filipinho, que fez somente 3,5 pontos. Mais uma vez, Filipinho deu razão aos que falam que ondas pesadas e tubulares para a esquerda ainda são o calcanhar-de-Aquiles deste surfista extraordinário e um dos favoritos ao título mundial.
A previsão é de que esta quarta-feira seja dedicada às mulheres, com um dia off na quinta. As condições devem melhor na sexta, para as finais femininas, com o mar voltando a ficar bem grande no sábado, para a decisão do masculino.
Como eu gostaria de ver o Medina surfar nestas condições!!!
Boas ondas!!!
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