Antony lembra dificuldades da infância em favela de São Paulo: “Driblava os traficantes, dava elástico nos bandidos”
Prestes a disputar primeira Copa, atacante publica texto emocionante no “The Players Tribune”
Prestes a disputar sua primeira Copa do Mundo, Antony publicou um texto emocionante no site “The Players Tribune”, em que lembra suas origens e a dificuldade de crescer em uma favela de São Paulo. Cria do “Inferninho”, comunidade localizada na zona norte da capital paulista, o atacante da seleção brasileira contou que driblou a criminalidade e foi salvo pelo futebol.
– Uma vez, na minha caminhada para a escola, quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, encontrei um homem deitado no beco. Só que ele não estava se mexendo. Quando me aproximei, percebi que ele estava morto. Não havia outro caminho a seguir, e eu tinha que ir para a escola. Então, eu só fechei meus olhos e pulei o cadáver – escreveu Antony.
– A bola me salvou. Driblar sempre foi algo dentro de mim. Um instinto natural. E eu não me intimidava. Eu driblava os traficantes. Dava elástico nos bandidos, chapéu nos motoristas de ônibus, canetava os ladrões –completou o jogador do Manchester United.
Antony morou no Inferninho até mesmo depois da estreia pelo time profissional do São Paulo. Dividia a cama com o pai. Só saiu de lá quando foi para a Europa. Foi jogando bola na praça da favela que o atacante foi notado por um diretor do Grêmio Barueri, que o levou para jogar futsal no clube. Aos 14 anos, ele chegou ao São Paulo.
– Todos os dias depois da escola, eu ia para o clube com o estômago vazio. Às vezes, se fosse num dia bom, eu e meus companheiros de equipe fazíamos uma vaquinha para comprar uma bolacha para a viagem de ônibus de volta pra casa. Eu não tinha que fingir estar com fome de motivação. A fome era real. Eu era tão magro, mas sempre jogava com “sangue nos olhos”.
Foi nesse período que o menino começou a sonhar com uma vida melhor. Ele conta que o que sempre quis foi dar uma vida melhor para os pais, que se separaram quando ele tinha 11 anos – o que também foi um baque para o atacante. No texto, Antony lembra de uma promessa que fez à mãe quando ainda estava no Grêmio Barueri: comprar um carro que um dia ele viu passar na rua.
– Se você fala com a mídia, eles sempre perguntam sobre seus sonhos. A Champions League? A Copa do Mundo? A Bola de Ouro? Mas esses não são sonhos. São objetivos. Meu único sonho era tirar meus pais da favela. Não tinha plano B. Eu ia conseguir ou morrer tentando.
– Ainda em 2019 quando fiz o gol contra o Corinthians, na final do Campeonato Paulista em Itaquera, depois do jogo eu já estava de volta na favela onde eu nasci… Um ano depois, eu estava no Ajax, jogando a Champions League. Foi assim que as coisas mudaram rápido. Eu não só tinha minha própria cama, mas a Range Rover Evoque vermelha estava na garagem da minha mãe. Eu disse a ela: “Tá vendo, mãe? Falei que iria conquistar. E conquistei.” Quando eu disse isso a ela quando eu tinha 10 anos, ela riu. Agora, quando eu lembro dessa história, ela chora.
Depois de duas temporadas no Ajax, o atacante foi para o Manchester United em setembro deste ano. Apesar das dificuldades, Antony reconhece que o Inferninho fez dele o homem que é hoje. Por isso, leva a palavra “favela” escrita na chuteira.
– Eu sempre digo que aonde quer que eu vá na vida, não importa o que aconteça comigo, eu represento o lugar que me ensinou tudo. Sem minha casa e meu povo, nada disso importa.
Antony está em Turim, na Itália, onde a seleção brasileira se prepara para a Copa do Mundo do Catar. A delegação viaja para Doha no próximo sábado. O Brasil estreia no dia 24, contra a Sérvia, às 16h (de Brasília). A Seleção está no Grupo G, que também conta com Camarões e Suíça.
Por Redação do ge — Rio de Janeiro
