Dólar fecha em R$ 5,20 e Ibovespa tem queda firme, com risco político e exterior fraco
A combinação de uma maior aversão ao risco no exterior e a cautela em relação às incertezas políticas internas fez o dólar fechar com alta firme, enquanto a Bolsa acumulou perdas.
A moeda americana terminou a terça-feira negociada a R$ 5,2087, com elevação de 2,42%, colocando o desempenho do real entre as divisas como um dos piores desta terça-feira.
Além disso, a divisa zerou as perdas do ano e agora sobe 0,41%. O dólar não fechava em um patamar tão alto desde o dia 31 de maio, quando encerrou cotado a R$ 5,2243.
O Ibovespa, principal índice da B3, teve baixa de 1,44%, aos 125.095 pontos.
Para os analistas, a ausência de boas notícias externas acentuou os nossos problemas internos, entre eles a turbulêcia política gerada pelas investigações sobre a aquisição de vacinas por parte do governo federal e o possível envolvimento do presidente Jair Bolsonaro no caso das “racahdinhas”, cuja apuração começou no gabinete do então deputado estadual, Flávio Bolsonaro, na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
Além disso, fatores como a crise hídrica e as propostas de reforma tributária, ainda vista com ressalvas pelo mercado, continuam presentes. Isso levou os investidores a se refugiarem na segurança trazida pelo dólar, fazendo o preço da moeda subir.
Clima pesado
Para o estrategista da Genial Investimentos, Filipe Villegas, a movimentação da moeda é uma mescla de fatores externos como a propagação da variante Delta, que aumenta a preocupação sobre o processo de retomada econômica no exterior, com as turbulências políticas internas.
Villegas ainda destaca que a volatilidade no preço do petróleo alimenta esse cenário negativo, já que eleva os tremores inflacionários pelo mundo.
E com o aumento dos preços, haveria maior pressão para que os bancos centrais reduzissem suas políticas estimulativas de juros baixos, o que pode diminuir a liquidez nos mercados.
— Não são fatores que mudam o cenário drasticamente, mas somando todos eles e, na ausência de notícias positivas, isso leva o investidor a adotar uma postura mais conservadora. E uma das proteções que eles possuem é o dólar.
No cenário interno, o estrategista destaca que o aumento das tensões na CPI da Covid-19, que está cada vez mais próxima de implicar membros do governo, acaba por aumentar as desconfianças do mercado no processo de reformas.
— O mercado acredita que isso terá um custo para o governo que deve atingir o andamento das reformas. E já tínhamos fatores internos que pressionavam a nossa Bolsa, como a crise hídrica e a proposta de reforma tributária.
O analista de Investimentos da Toro Investimentos, Braulio Langer, ainda destaca um fator técnico que ajuda a explicar a alta.
— O dólar veio de uma grande queda nos últimos dois meses, desde que testou a região dos R$ 5,80. Então essa alta de hoje também reflete uma realização de lucro das posições vendedoras, que estavam apostando na queda do dólar após vários meses de altas consecutivas. É natural que depois de uma queda de mais de dois meses, o mercado se reequilibre e suba um pouco.
Langer ressalta que essa alta combinada com a queda do Ibovespa também se devem aos fatores políticos em um cenário de exterior ruim, nesta terça.
— Acredito que a gente possa explicar essa queda da bolsa brasileira tanto por uma realização de lucros dos ativos de risco internacionais, que puxam o Ibovespa, e as incertezas políticas, que pesaram mais na parte da tarde.
Para o CEO da Top Gain, startup de análises de mercado, Alison Correia, o ambiente político pesado também contribui para a queda dos ativos no dia:
— Temos informações negativas no cenário político que, desde sexta-feira, começaram a tomar mais corpo. Talvez isso não dê me nada, mas as pessoas ficam com um pé atrás, pois isso está tomando a atenção dos principais líderes do governo, fazendo com que eles percam o foco da agenda de reformas que o mercado espera.
Para Correia, fatores que já vinham promovendo instabilidade por aqui ficam mais visíveis em um dia com o exterior mais fraco.
— A gente tem um contexto que favorece as incertezas por aqui, como o fator inflacionário. Estávamos com uma expectativa de crescimento para o país, só que agora começamos a perceber que podemos ter problemas até de falta de energia. Todo esse clima acaba fazendo com o que os investidores se posicionem em ativos de mais segurança, como o dólar.
Petróleo volatil
No exterior, destaque para o preço das commodities, em especial do petróleo. Com o impasse entre os países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e seus aliados (Opep +) sobre o aumento da produção, o preço da commodity chegou a subir no exterior.
O petróleo do tipo WTI chegou a ser negociado no maior valor desde 2014 e o do tipo Brent exibia a maior alta desde outubro de 2018.
Mas o movimento perdeu força. Os contratos do petróleo tipo WTI para agosto tiveram baixa de 2,38%, com cotação de US$73,37, o barril.
Já os do tipo Brent para setembro cederam3,40%, negociados a US$74,53, o barril.
O avanço da cotação deve elevar os temores de uma pressão inflacionária pelo mundo. Nesta semana, ainda é divulgado o IPCA do mês de junho por aqui.
No cenário externo, os agentes de mercado já se preparam para a divulgação da ata do Federal Reserve, Banco Central americano, nesta quarta-feira, para entender os motivos que levaram os dirigentes do banco a anteciparem a alta de juros na economia do país.
Queda generalizada
Em um dia bastante negativo, são poucas as empresas que conseguem operar em alta.
Os papéis ordinários da Petrobras (PETR3, com direito a voto) cederam 3,74% e os preferenciais (PETR4, sem direito a voto), 4,09%.
As ordinárias da Vale (VALE3) subiram 0,53%.
No setor financeiro, ocorria mais um dia de perdas. As preferenciais do Itaú (ITUB4) e do Bradesco (BBDC4) cederam 1,11% e 1,26%, respectivamente. As ordinárias do Banco do Brasil (BBAS3) tinham queda de 1,50%.
Bolsas no exterior
Após um dia sem funcionar, devido ao feriado do Dia da Independência, as bolsas americanas fecharam com sinais contrários. O índice Dow Jones cedeu 0,60% e o S&P, 0,20%. A Bolsa de Nasdaq subiu 0,17%.
Entre os destaques negativos, esteve a ação da Didi Chuxing, operadora do aplicativo 99, que caiu 19,58%. Isso porque a agência que regula a internet na China determinou o bloqueio do acesso de novos usuários ao aplicativo, enquanto uma investigação de cibersegurança na empresa era realizada.
A Amazon, por sua vez, teve avanço de 4,69% em seus ativos. Hoje foi o primeiro pregão após a mudança no comando da empresa, com a saída de Jeff Bezos.
Na Europa, as bolsas fecharam em queda. A Bolsa de Londres cedeu 0,98%. Em Frankfurt e Paris, as quedas foram de 1,04% e 1,13%, respectivamente.
As bolsas asiáticas fecharam com sinais contrários. O índice Nikkei, da Bolsa de Tóquio, subiu 0,28%. Em Hong Kong e na China, as quedas foram de 0,25% e 0,05%, respectivamente.
