Em relatos a grupo de apoio no Brasil, mulheres afegãs contam suas razões para fugir do Talibã

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Relatos incluem chicotadas em protesto e perseguição a quem trabalhou para organizações internacionais; saída pelo Paquistão de refugiados foi interrompida, mas governo brasileiro diz que será regularizada

Em 16 de agosto, um dia depois de o Talibã tomar o poder no Afeganistão, um vídeo gravado no aeroporto de Cabul mostrou uma imagem marcante: pessoas apavoradas se penduravam em um avião de transporte C-17 americano, tentando deixar o país. Três meses depois, o grupo fundamentalista continua aterrorizando famílias, que buscam refúgio no Brasil e em outros países.

As mulheres — que foram proibidas de trabalhar e estudar no primeiro governo do Talibã, nos anos 1990 — estão entre as principais vítimas. O GLOBO teve acesso a depoimentos de várias delas que querem sair do Afeganistão. Elas sofreram perseguição por parte do grupo fundamentalista que agora governa o país da Ásia Central ou temem ser perseguidas, e por isso os relatos são publicados sob anonimato.

São histórias comoventes e, em alguns casos, estarrecedoras, encaminhadas à Coalizão Brasil-Afeganistão. A entidade reúne organizações da sociedade civil e entidades de classe, como dos magistrados. O objetivo da coalizão é cuidar de famílias afegãs vulneráveis e perseguidas que, de alguma forma, sofrem violência e correm risco de vida.

João Prado, coordenador da coalizão e presidente da Abuna, ONG que trabalha há 13 anos com o acolhimento de refugiados, destaca que há uma geração de mulheres que viveram um período de maiores liberdades civis e hoje são alvo do Talibã: jornalistas, artistas, educadoras, juízas. Há também pessoas que trabalhavam para organizações e governos estrangeiros durante os 20 anos de ocupação do país pelas forças da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), foram deixadas para trás e agora temem represálias.

— Tudo o que tem a ver com liberdade de expressão, liberdade religiosa e autonomia o Talibã quer destruir — disse Prado.

Estratégias de retirada dessas pessoas do Afeganistão não são reveladas pelas entidades que as ajudam, mas o processo de vinda para o Brasil foi interrompido há alguns dias, com uma nova política adotada pelas autoridades do Paquistão. De acordo com informações da coalizão, afegãos que conseguiram fugir para o país vizinho estão sendo impedidos de sair do território paquistanês, mesmo com visto humanitário concedido pelo governo brasileiro.

—O Paquistão alega que essas pessoas entraram ilegalmente. São famílias que já eram vulneráveis, venderam tudo o que tinham, arriscaram-se para atravessar a fronteira. Há pessoas que andaram 40, 50 quilômetros no meio das montanhas — disse João Prado.

169 contemplados

O Itamaraty informou ter pedido às autoridades paquistanesas que fosse mantida a política de regularização de afegãos que receberam visto brasileiro. Na quinta-feira, Islamabad indicou que esse procedimento será retomado. De acordo com o Itamaraty, 90 pessoas já estão com os vistos em mãos e aguardam autorização para deixar o país, e 110 vistos foram solicitados. “Espera-se, portanto, que o Brasil poderá dar continuidade à sua política de acolhida humanitária”, informou a pasta.

O visto humanitário passou a ser concedido pelo Brasil a afegãos no início de setembro. Até terça-feira passada, 169 pessoas haviam sido contempladas, segundo o Itamaraty. A medida não prevê o resgate no Afeganistão, pelo governo brasileiro, de potenciais beneficiários. Como o Brasil não tem embaixada em Cabul, o visto deve ser buscado nas embaixadas no Paquistão, na Rússia, na Jordânia, no Irã, nos Emirados Árabes e no Qatar.

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