Ex-presidente do Iprev vai contar tudo quando for ouvido pela PF

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Ronnie Mota revelou à Tribuna Independente, ainda, que se sente isolado e que seu patrimônio é lícito

 

 

Em entrevista exclusiva à reportagem da Tribuna Independente, Ronnie Mota negou que tenha feito fortuna com a ajuda do amigo ex-prefeito. Segundo ele, todos os seus bens, relacionados pela Polícia Federal e tornados indisponíveis, são de origem lícita e estão todos declarados no seu Imposto de Renda Pessoa Física.

No entanto, Ronnie Mota confirmou que prestou serviços de consultoria informal ao ex-prefeito JHC, no acordo da prefeitura de Maceió com a Braskem, que rendeu ao município uma indenização de R$ 1,7 bilhão.

A verba da Braskem foi liberada em parcelas a partir de 2024, para tentar cobrir os estragos que a mineração provocou em cinco bairros da capital alagoana e que veio à tona em 2018, com a tragédia do afundamento do solo.

Questionado se a operação que ele fez no Banco Master, como presidente do Iprev, teve o aval do então prefeito JHC, ele não disse nem que sim e nem que não.

Mota disse apenas que ele e JHC teriam sido enganados pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e acusado de ter dado um golpe no mercado financeiro estimado em R$ 50 bilhões.
“Somos vítimas do Master”, disse Ronnie Mota, ao ser questionado se a aplicação do Iprev [cerca de R$ 117 milhões] no banco do Daniel Vorcaro teve o aval do então prefeito JHC.

Perguntado se JHC estava sabendo da aplicação do Iprev no Master, Mota não quis revelar, mas disse que “no momento certo todos saberão. Não posso falar ainda”.

Indagado se iria inocentar o JHC ou quem for podre que se quebre, ele respondeu: “O certo é certo! Sei que da minha parte estou tranquilo. Só posso falar por mim!”.

A reportagem perguntou ainda se Ronnie Mota conta com o apoio de JHC, ou se depois do escândalo do Banco Master, o ex-prefeito se afastou dele? Ele disse: “Depois da minha exoneração [no Iprev] não tive mais contato com ele”.

CAMPANHA

Ronnie evitou entrar em polêmica, por isso deixou de responder quando questionado se achava correto a exploração do caso Iprev/Master pelos adversários de JHC, na campanha eleitoral deste ano em Alagoas. Ressabiado, o ex-presidente preferiu não comentar.

No início desta semana, parte do relatório da PF vazou para a imprensa. Nele, aparece que o ex-presidente do Iprev Maceió teria recebido R$ 300 mil em dinheiro vivo e comprado cerca de R$ 800 mil em bens de consumo durável.

Questionado pela se essas informações do relatório da PF procediam, ele disse que não e garantiu que todo o seu patrimônio tem origem lícita. “Origem totalmente lícita. Devidamente declarada no IR [Imposto de Renda Pessoa Física]. Além do mais nenhuma relação com o caso Master, segundo o próprio relatório (RIF), as movimentações são anteriores ao investimento”, afirmou Ronnie.

Ele pretende dizer tudo que sabe, e apresentar as provas sobre a “legalidade” do aporte financeiro que o Iprev fez no Banco Master, quando for ouvido pela Polícia Federal.

“Ainda não prestamos depoimento à Polícia Federal, mas já mandamos, ao Supremo Tribunal Federal (STF), a resposta à nefasta representação da PF”, revelou Ronnie Mota, acrescentando que sua defesa está preparada para rebater as acusações e ilações contra ele.

Ronnie Mota garantiu que “jamais” houve dolo na operação do Iprev no Master, durante a gestão dele. No entanto, não quis revelar os detalhes das negociações com o banco do Daniel Vorcaro. “No momento certo todos saberão. Não posso falar ainda”, disse ele.

Indagado se iria inocentar o JHC ou quem for podre que se quebre, ele respondeu de forma enigmática; “O certo é certo! Sei que da minha parte estou tranquilo”. E da parte do JHC? – questionei. Ronnie Mota respondeu: “Só posso falar por mim!”.

O ex-presidente do Iprev não quis dizer se ainda tem o apoio de JHC, ou se o ex-prefeito teria se afastado dele, após o escândalo do Banco Master. “Depois da minha exoneração, não tive mais contato com ele”, garantiu, referindo-se ao ex-prefeito.

Segundo Ronnie Mota, apesar desse estardalhaço todo sobre o prejuízo que o Iprev teve com o Master, “nenhuma irregularidade” teria sido registrada.

Para ele, a investigação da PF certamente deve mostrar que a operação foi feita dentro da normalidade, a exemplo do que aconteceu com outros Institutos de Previdência.

Justiça fala em R$ 97 milhões e adversários eleitorais citam até R$ 117 milhões

Entre dezembro de 2023 e maio de 2024, enquanto JHC comandava a Prefeitura de Maceió, o então presidente do Iprev, Ronnie Mota, investiu cifras milionárias no Instituto em Letras Financeiras do Banco Master.

Quando o banco quebrou, em 2025, o dinheiro dos aposentados de Maceió evaporou. Com isso, os adversários de JHC passaram a responsabilizar o ex-prefeito pelo prejuízo avaliado em R$ 117 milhões.
A Justiça fala em R$ 97 milhões, e peças da disputa eleitoral mencionam até R$ 117 milhões. O Master viria a ser liquidado extrajudicialmente, culminando na prisão de seu controlador Daniel Vorcaro, no final do ano passado.

Para o vereador Rui Palmeira (PSD), quem primeiro denunciou o escândalo, o dinheiro do Iprev não era do prefeito nem do banco.

Era a poupança previdenciária de milhares de servidores e aposentados da capital alagoana. Por isso, segundo o vereador, se a operação tivesse sido lícita, não teria entrado no radar da PF.

Palmeira responsabiliza o ex-prefeito JHC pela operação, já que Ronnie Mota foi uma indicação dele e era da sua confiança. Por isso, o vereador espera que a representação da PF esclareça tudo.

A representação, inserida nos autos do processo remetidos ao Supremo Tribunal Federal (STF), descreve a operação cercada de supostas irregularidades.

MÍDIA NACIONAL

O caso Iprev/Master ganhou repercussão nacional, principalmente depois que o senador Renan Calheiros colocou a operação no radar da CAE (Comissão de Assuntos Econômicos do Senado) e logo após o ex-prefeito JHC se lançou candidato ao governo de Alagoas nas eleições deste ano, pelo PSDB.

Esta semana, por exemplo, o Portal Metrópoles, reportou o assunto com destaque, na coluna do jornalista Matheus Leitão, fazendo uma relação entre o dinheiro dos aposentados, o ex-prefeito JHC e o caso Iprev/Banco Master.

Segundo o colunista, documentos da PF e da Justiça, liberados após a queda do sigilo no STF, mostram que milhões dos servidores de Maceió foram parar no Master.

De acordo com a auditoria da Secretaria de Regime Próprio e Complementar do Ministério da Previdência, os aportes foram feitos em desacordo com a Política Anual de Investimentos do próprio instituto, concentraram cerca de 20% de todo o patrimônio líquido do fundo em um único emissor e careciam de fundamentação técnica nas autorizações de aplicação.

Segundo o colunista, “a PF aponta ainda que o Banco Master foi favorecido já em 2023, com R$ 80 milhões, mesmo sem constar de lista de autorização do Ministério da Previdência. O Iprev deixou de credenciar outras instituições financeiras habilitadas.

A sessão do Conselho de Administração que aprovou a política de investimentos de 2024 não tinha quórum, e os gestores dispunham de elementos suficientes para perceber a falta de solvência do banco”.

Inquérito e duas representações criminais foram ao Supremo Tribunal Federal

A reportagem do Portal Metrópoles revela ainda que “a consultoria que assessorava o Instituto já havia sido instrumento de esquema análogo investigado na Operação Rebote, e seu diretor tem condenação por modus operandi semelhante. Mesmo assim, seguiu orientando o fundo dos servidores de Maceió”.

“É aqui que a figura de JHC entra nos autos”, destaca o colunista. Segundo ele, os alvos das medidas cautelares pedidas pela PF, entre as quais busca e apreensão, afastamento de função pública e sequestro de bens, são os dirigentes e técnicos do Iprev e da consultoria.

Na lista, o estão o presidente do Iprev, Ronnie Mora, colocado no cargo por JHC, como registrou a propaganda eleitoral que originou a disputa judicial, além de um conselheiro do Instituto, alçado ao cargo de secretário municipal de Fazenda de Maceió e o atual presidente do instituto.

Mas a decisão da 13ª Vara Federal de Alagoas, assinada em 18 de março de 2026, foi além dos subordinados. Ao acolher manifestação do Ministério Público Federal, o magistrado consignou o “possível envolvimento” do então prefeito e registrou que os elementos colhidos indicam que JHC “figura como responsável legal da unidade gestora perante o Ministério da Previdência Social e possui poder direto de nomeação e exoneração da cúpula do IPREV Maceió”.

Em outras palavras, o responsável pelo fundo era o prefeito, e era ele quem escolhia e podia demitir, a qualquer momento, os gestores que fizeram as aplicações.

“Foi justamente essa posição de JHC, somada ao foro por prerrogativa de função, que levou o juiz a declinar da competência e remeter todo o caso, incluindo o inquérito e as duas representações criminais, ao Supremo Tribunal Federal, para tramitar junto ao chamado Caso Banco Master. O STF terá de dar palavra final sobre o caso, segundo apurou a coluna na Corte”, explicou o colunista do Metrópoles.

Ele disse ainda que “durante meses esses documentos permaneceram sob sigilo, período em que a coligação de JHC, hoje candidato ao Governo de Alagoas, moveu ações contra o adversário Renan Filho (MDB) e contra ao menos 16 portais de notícias que repercutiram o caso, obtendo remoções de vídeos e reportagens”.

O quadro mudou na sexta-feira passada (11), quando o ministro relator do caso no STF levantou o sigilo dos autos. Logo após a quebra do sigilo, que havia confirmado presença no debate da Band entre os candidatos ao governo de Alagoas, não compareceu ao encontro.

No sábado (12), o TRE/AL ainda concedeu à coligação de JHC 21 inserções de direito de resposta contra a propaganda “Escândalo do Banco Master”, de Renan Filho, sob o argumento de que a investigação não individualizava o ex-prefeito.

No último domingo (13), porém, às 15h26, o próprio relator no TRE/AL suspendeu a veiculação das inserções de JHC – conforme registrou o colunista do Portal.

Os documentos tornados públicos, justamente a decisão federal que registra o “possível envolvimento” e a condição de responsável legal, “guardam relação direta” com a premissa da decisão anterior, escreveu o magistrado, remetendo a questão ao plenário da Corte.

Na prática, a blindagem construída em torno do nome do candidato começou a ruir com a publicidade dos autos. O que antes era tratado como associação “sem suporte factual” agora terá de ser reavaliado à luz do que a própria Justiça escreveu sobre o papel do ex-prefeito.

JHC não é, até aqui, formalmente investigado, mas era o responsável legal pelo fundo perante o Ministério da Previdência, nomeou a cúpula que fez as aplicações hoje sob suspeita de gestão fraudulenta, tinha o poder de exonerá-la a qualquer tempo, e a Justiça Federal registrou seu “possível envolvimento” ao mandar o caso para o Supremo.

Caberá ao STF dizer se essa responsabilidade administrativa e política se converte em responsabilidade penal, valendo, até lá, a presunção de inocência de todos os citados.

OUTRO LADO

Procurado no último domingo (13) pelo portal Metrópoles, o candidato JHC afirmou que “não é investigado no caso envolvendo investimentos do Maceió Previdência”.

Além disso, “os investimentos foram realizados pelo instituto, que possui autonomia administrativa e financeira para gerir os recursos. Em julho, aliás, uma decisão da Justiça determinou a retirada de JHC de ação relacionada ao tema por entender que o ex-prefeito de Maceió não participou nem teve ingerência sobre tais aportes. É preciso informar ainda que qualquer tribunal de Justiça só passa a investigar uma pessoa se provocado pela polícia judiciária ou Ministério Público. A não participação de JHC em sabatina no sábado deve-se ao fato de ele ter assumido compromissos no interior do estado.”

 

Por Ricardo Rodrigues – repórter / Tribuna Independente

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