Fora da Copa, Estêvão fala de tentativa até o último minuto para jogar o Mundial: “Fiz tudo certinho”
Uma das principais esperanças brasileiras para a Copa, o craque do Chelsea acabou ficando de fora do Mundial por causa de uma grave lesão muscular. Aos 19 anos, o paulista Estêvão mostra maturidade ao falar do momento delicado, conta sobre a relação com Carlo Ancelotti e, evangélico, agarra se à fé para sustentar sua recuperação
Em 24 de junho de 2007, o poeta e escritor Ferreira Gullar (1930-2016) reservou sua coluna na “Folha de S.Paulo” para decretar: o futebol é um jogo de azar. Apesar dos planos traçados pelo treinador, nada se pode prever quando 22 indivíduos estão dentro das quatro linhas. Segundo ele, o principal desses acasos envolve “o talento e a habilidade dos jogadores”. Exatos três meses antes da publicação desse artigo, nascia em Franca, interior de São Paulo, um menino que mais tarde se tornaria um dos grandes exemplos da imprevisibilidade futebolística. Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira, o definiu como “um talento extraordinário”. Abel Ferreira, comandante do Palmeiras, também o elogiou: “O moleque faz maravilhas. Enquanto ele tiver energia para jogar, aproveitem, porque é maravilhoso”.
Difícil saber o que vai acontecer quando a bola cai nos pés de Estêvão, hoje ponta-direita do britânico Chelsea. A habilidade de criar algo mágico, quando frente a frente com os defensores, o alçou ao posto de uma das principais esperanças do futebol brasileiro da atualidade. Mesmo tão jovem, com 19 anos, e apenas há três no profissional. Do outro lado da tela, durante uma entrevista por videochamada para esta reportagem, o jovem surgiu com seus traços ainda de menino.
Sorriu o tempo todo, em parte por pura simpatia, mas também por um quê de timidez. Não abandonou a leveza nem para falar de temas espinhosos, como quando perguntei sobre o momento delicado que vive atualmente. No fim de abril, Estêvão sofreu uma grave lesão muscular na coxa durante uma partida contra o Manchester United, que acabou com as chances de disputar sua primeira Copa do Mundo, agora em junho. No Mundial, tinha participação praticamente garantida devido à admiração de Ancelotti por seu futebol e o posto de artilheiro na gestão do italiano.
“Ele foi um cara que me surpreendeu bastante pela humildade, pela pessoa que é. Sempre se mostrou carinhoso comigo, sempre me tratou muito bem. A gente tem uma relação muito especial”, afirma o atleta sobre o professor. “Ele brinca comigo na questão do inglês ( risos ). Quando eu não estava desenrolando o idioma ainda, ele me ligava para conversarmos em inglês.”
O craque buscou tudo ao seu alcance para conseguir disputar o campeonato. Optou por não passar por cirurgia e tentar um tratamento no Brasil, com o acompanhamento de médicos pessoais, do Palmeiras, seu antigo clube, e suporte de profissionais do Chelsea. “Estou fazendo tudo certinho, cuidando da alimentação, do sono, tentando tudo o que é possível para me recuperar”, contou, antes da notícia do corte definitivo.
“Vestir a camisa da seleção brasileira tem um peso diferente. Não peso no sentido de um fardo, mas um peso da história, de saber quem já representou as cinco estrelas, quem conquistou as cinco estrelas. Trabalhei tanto para chegar à seleção que preciso me apresentar com alegria, com amor, com paixão. Então, sempre que entro em campo com a amarelinha, sou muito feliz. Meu maior sonho para o futuro, com certeza, é conquistar uma Copa do Mundo”, reflete.
Talvez azar seja uma avaliação desse cenário que se encaixe apenas na visão dos torcedores, que sonhavam em assistir ao menino no Mundial, uma análise de quem vê de fora. Estêvão tem optado por encarar a situação de outra forma, sem ansiedade nem sensação de injustiça.
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“Na hora da lesão eu só… Ah, é meio difícil falar porque ninguém gosta de se machucar, né? Só que o jogador está sempre muito exposto a lesões. Entreguei nas mãos de Deus. Confio nos sonhos de Deus.” Muito religioso, o filho do pastor Ivo, presidente da congregação Visão do Evangelho, começou sua relação com o futebol com apenas 3 anos. Ao acompanhar o pai nas funções evangélicas, aprendeu a driblar não zagueiros, mas os bancos da igreja. Depois, viria um defensor mais imponente: um rottweiler, com quem convivia. O pet não podia ver o menino com uma bola que corria atrás e tentava pegá-la.
Essas experiências o moldaram para os anos seguintes, quando passou a chamar atenção em campos amadores no interior até aparecer no radar de profissionais do Cruzeiro, de Minas Gerais. O time esperou alguns anos até que a família do pequeno se sentisse preparada para deixar a terra natal. Assim, o filho mais velho poderia agarrar novas oportunidades.
“Minha mãe trabalhava em fábricas e meu pai trabalhou com futebol em escolinhas em Franca. Eles abriram mão de tudo para viver o meu sonho. E virou o nosso sonho. Foi bem difícil no começo, precisar sair da minha cidade, de perto dos meus primos, com quem eu vivia, dos meus avós, das minhas tias…”, lembra.
“O jogador de futebol é muito sozinho. A gente viaja bastante, fica distante. São coisas com que precisamos lidar; amadurecemos para seguir buscando o nosso sonho. Em Belo Horizonte, o sacrifício deu resultados. Basta saber o apelido que ganhou na escolinha do Cruzeiro: Messinho, em referência a “apenas” Lionel Messi. Aos 12 anos, treinava junto dos garotos do sub-17 para igualar a qualidade técnica, apesar de o físico miúdo exigir cuidados extras dos companheiros para evitar que se machucasse.
Na visão de Estêvão, no entanto, tudo era uma grande diversão. Fazia o que amava, então, mesmo quando terminava de treinar, ainda queria jogar mais no campinho próximo à sua casa. Não demoraria muito para que o es – forço e o desempenho despertassem o interesse de outros grandes clubes, caso do Palmeiras, que, em 2021, formalizou um contrato com o garoto de 14 anos. A velocidade da ascensão acompanhou a dos dribles. Em 2022, ainda na categoria de base, Estêvão virou campeão paulista no sub-15 e no sub-17.
Mal dava tempo de entender um acontecimento antes que outro ainda maior surgisse na sequência. Dois meses depois daquela final do Brasileiro sub-17 em que marcou três gols, Estêvão estreou no elenco principal do Palmeiras. Não se passaram nem trinta dias até ele se tornar campeão do Brasileirão pelo profissional. No começo de 2024, ainda chegaria o título do Campeonato Paulista; no fim do ano, a coroação individual com os prêmios de revelação e de melhor jogador do Brasileirão.
“Foi complicado porque veio tudo de uma forma muito rápida. Mas meu pai sempre falou que eu precisava receber o sucesso com humildade. Evitei ver coisas na mídia para não deixar subir à cabeça e para focar no meu trabalho, para dar meu melhor no Palmeiras cada dia mais”, diz. Na imprensa, seu nome aparecia casado com palavras como “promessa”, “joia”, “craque” e “gênio”.
Porém, a pressão principal era mesmo interna. “Você deve ter algo a mais no dia a dia para conseguir realizar seus sonhos. A maior parte disso aprendi com meu pai. A gente precisa tentar evoluir, treinar mais para conquistar o nosso espaço, né? Para virar atleta de alto nível, não dá para levar na brincadeira.” Ainda em 2024, o trabalho rendeu o fruto mais esperado para um boleiro: estrear na seleção brasileira.
“A primeira entrada em campo… Sinto até um frio na barriga de lembrar. Você começa a pensar no seu passado, no seu futuro. Pensa na família, nos amigos, em tudo o que enfrentou no meio do caminho, nos baques e nas vitórias”, conta o jogador, que entrou para o seleto grupo dos cinco mais jovens a vestir a amarelinha, aos 17 anos, atrás apena de Endrick (17), Coutinho (17), Edu (16) e Pelé (16).
A projeção precoce despertou o interesse de grandes clubes europeus. Estêvão aceitou, então, a transferência para o Chelsea, para onde partiu em 2025 ao completar 18 anos. A transação valeu 61,5 milhões de euros ao Palmeiras. O garoto fala com surpresa sobre não ter sofrido tanto quanto achava que sofreria com a mudança para a Inglaterra. “Foi mais fácil do que imaginei”, define. Só reclama de duas coisas: o clima e a comida local.
“Nunca havia passado por algo assim na vida, com certeza. Joguei na neve! Menos 5, menos 6 graus. Uma situ – ação que me assustou de cara. O frio, sem dúvida, foi um dos meus maiores inimigos nessa adaptação”, afirma. Ele também lembra da estranheza de comer feijão pela primeira vez no café da manhã, com sabor adocicado, para nunca mais repetir. Ajudou contar com o apoio dos brasileiros do time.
“O João Pedro e o Andrey foram dois ali que me acolheram bastante desde que cheguei. Eles estão na Europa há mais tempo. A gente só fica junto, muito grudado.” Não que os outros jogadores não tenham abraçado o brasileiro: “Com o Reece James, o capitão, por exemplo, aprendi bastante sobre dedicação, sobre não me deixar acomodar, sabe? Sempre querer buscar mais, treinar mais. Então, a maioria me acolheu muito, como se eu fosse o caçula dali”.
A rotina em Londres tem se mostrado corrida e disciplinada. O dia começa com a apresentação no clube por volta das 9h30. Existe toda uma liturgia antes de a bola rolar: café da manhã obrigatório, conversas com os companheiros, sessões de mobilidade, ativação muscular, tratamentos preventivos, vídeos e reuniões técnicas. Só então vem o campo. Depois ainda há academia, musculação, recuperação física e trabalhos específicos para o corpo suportar o ritmo intenso. No tempo livre: mais futebol. Mas dessa vez por meio de uma tela.
“Nem no videogame eu largo o futebol. Gosto de jogar ‘FIFA’, levo a sério. Não sou muito bom, mas também não sou ruim, não. Às vezes jogo comigo, tem que jogar, né? Eu sonhava com isso havia muito tempo. Eu jogava bas – tante com o Neymar no videogame pensando: ‘Será que vou chegar lá um dia?’. Agora estar no ‘FIFA’, pô, é muito legal me ver ali. Até me xingo às vezes”, diverte-se.
A dúvida que não quer calar, então, é qual tem mais futebol no pé, o Estêvão da vida real ou o do videogame? “Ah, é difícil. Acho que vou ficar com o da vida real. O da vida real é um pouquinho melhor”, ri
