O fim de uma era: Joachim Löw e o legado para a Alemanha

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Técnico deixa o comando da seleção depois de 15 anos, com muitos recordes, vitórias, fracassos, polêmicas e, sobretudo, a sua marca na história do futebol

Por Rodrigo Nunes Lois –ge

— E lá vêm eles de novo!

A frase eternizada na voz de Galvão Bueno resume o que foi o “7 a 1” para o Brasil na Copa do Mundo de 2014. O maior vexame da nossa seleção e, ao mesmo tempo, o ápice da Alemanha, que seria campeã em cima da Argentina, no Maracanã. Alemanha de Joachim Löw.

Essa Alemanha não existe mais. Há alguns anos, em teoria. E na prática, a partir de hoje, inicia uma nova era, depois de 15 anos com Löw.

A seleção alemã se despediu da Eurocopa com a derrota para a Inglaterra, encerrando assim o período de seu técnico mais longevo. Também o mais vitorioso. O protagonista de cenas curiosas. O personagem de vários vexames. O homem que transformou o estilo da equipe nacional e entrou para a história do futebol mundial.

O LEGADO DO TÉCNICO

As marcas de Joachim Löw já podiam ser observadas antes mesmo de se tornar o chefe. Ele foi o auxiliar de Jürgen Klinsmann, seu antecessor, durante dois anos. Muitas vezes teve a responsabilidade de elaborar o plano tático da equipe. Não era a cara, mas era tratado como o cérebro.

É inegável a sua contribuição para a lufada de modernidade que impactou o futebol alemão no início do século. Parte de um movimento maior, provocado pela eliminação na primeira fase da Eurocopa-2000, e que envolveu clubes, ligas, federação e Estado. A Alemanha estava determinada a voltar ao topo, de uma forma diferente.

Não foi reflexo desse processo o vice na Copa do Mundo de 2002 para o Brasil, mais um fruto de uma chave fácil, com Irlanda, Camarões e Arábia Saudita, casado com um cruzamento favorável (Paraguai, Estados Unidos e Coreia do Sul foram todos vencidos por 1 a 0 no mata-mata). Tanto que na Euro-2004, a seleção saiu na etapa de grupos. Eliminação que motivou a chegada da dupla Klinsmann-Löw.

O início de tudo - AFP

O início de tudo

JOACHIM LÖW COMEÇOU A TRABALHAR NA SELEÇÃO ALEMÃ EM MEADOS DE 2004, COMO AUXILIAR DE KLINSMANN

AFP

O marco-zero foi mesmo na Copa do Mundo de 2006. Torneio que virou um “conto de verão” para os torcedores, e o cenário de novidades para a equipe, como marcação por zona, pressão e, em especial, um estilo de jogo ofensivo. A Alemanha terminou a Copa em terceiro lugar.

Löw virou o 10º técnico da história da seleção alemã menos de uma semana depois. Desde então, ele dirigiu a equipe em três Copas do Mundo (2010, 2014 e 2018) e quatro Eurocopas (2008, 2012, 2016 e 2020). Quase chegou a 200 jogos oficiais com a equipe nacional.

Campeão do mundo em 2014, no Brasil, e da Copa das Confederações de 2017, na Rússia. Finalista na Euro-2008, terceiro na Copa da África do Sul, em 2010, e semifinalista de Eurocopa em 2012 e 2016. Líder de grupo em quase todas as eliminatórias que disputou. É o treinador com mais jogos (38) e vitórias (24) em Eurocopas e Mundiais combinados.

Infográfico: Números de Joachim Löw com a seleção da Alemanha  - Infografia ge
Infográfico: Números de Joachim Löw com a seleção da Alemanha – Infografia ge

Nesse período, Joachim Löw viu o Brasil ir de Dunga para Mano Menezes, para Felipão, de volta para Dunga, até Tite. A Itália teve seis técnicos diferentes. A Argentina, oito. A Espanha veio, rivalizou e perdeu força. E a Inglaterra segue sem ganhar nada. Mais longevo que o alemão, só Óscar Tabárez, técnico do Uruguai desde março de 2006.

No contexto de seleção, de encontros e treinos raros, além da pressão de uma escola futebolística como a alemã, tempo foi artigo fundamental para Löw colocar em prática suas ideias e desenvolver jogadores que fizeram história pelo país. Manuel Neuer, Philipp Lahm, Sami Khedira, Bastian Schweinsteiger, Mesut Özil, Lucas Podolski, Thomas Müller… Ele utilizou nesses 15 anos 139 atletas ao todo.

Sua herança se encontra justamente no casamento entre um estilo de jogo técnico, ofensivo e atrativo, algo diferente da tradição nacional anterior, com sucesso em termos de resultados. Löw estabeleceu uma nova identidade para o futebol da Alemanha.

— O seu maior legado foi implementar um estilo de jogo que o futebol alemão nunca havia praticado antes. Sempre tivemos seleções com jogadores fortes fisicamente, grandes atacantes, mas não eram equipes muito brilhantes sob o ponto de vista técnico. Isso mudou com ele. Os torcedores passaram a sentir orgulho não só do sucesso, mas do estilo de jogo. Ele tirou o futebol alemão de uma espécie de sombra para um futebol moderno e atraente —disse Lars Wallrodt, chefe de Esportes do jornal “Bild am Sonntag”, o de maior circulação do país, ao ge.

Joachim Löw: técnico mudou o esitlo de jogo da seleção da Alemanha - Getty Images
Joachim Löw: técnico mudou o esitlo de jogo da seleção da Alemanha – Getty Images

QUEM É “JOGI”

Joachim Löw, ou “Jogi” para os íntimos e toda a torcida alemã, é um homem de muitas curiosidades. Tem compulsão por doces, de todos os tipos. Também adora um vinho tinto italiano. A cozinha italiana, no geral.

Costuma dar caminhadas matinais de 5km. Mas já foi tão longe quanto o pico do Monte Kilimanjaro, na Tanzânia — maior montanha da África, com quase 6 mil metros de altitude.

Sujeito estiloso, de cabelo bem cuidado, barba feita, que valoriza a alta costura minimalista. Usa perfumes de diversas marcas. Um perfil distinto da “velha guarda” de seus antecessores.

Joachim Löw é reconhecido pela sua elegância e roupas sofisticadas - AFP
Joachim Löw é reconhecido pela sua elegância e roupas sofisticadas – AFP

Também curte acelerar fundo ao volante. Ou pelo menos curtia. Ele já teve a habilitação suspensa duas vezes, a última em 2014, por excesso de velocidade e por estar ao telefone enquanto conduzia.

Löw tem muitas manias. Algumas delas … peculiares, digamos. Na verdade, o melhor não é dizer, mas observar. E como vimos essas manias se repetirem ao longo do tempo, ali no banco de reservas.

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