O que explica a volta de sarampo, meningite, pólio e outras doenças?
Queda na cobertura vacinal e outros fatores fazem enfermidades controladas ameaçarem gerar novos surtos. Especialistas analisam como contornar a situação
Um vírus altamente contagioso, transmitido por gotículas de saliva e secreções, que causa uma doença potencialmente letal entre não vacinados. Não estamos falando do Sars-CoV-2, responsável pela pandemia que já se estende por mais de dois anos. Trata-se do Measles morbillivirus, o vírus do sarampo, que tem um potencial ainda mais destrutivo do que o coronavírus devido a sua alta transmissibilidade. Se um infectado transmite o microrganismo causador da Covid-19 para até cinco pessoas, alguém com sarampo pode espalhar a doença para outros 14 indivíduos — ou até mais.
Antes da introdução da vacina, em 1963, e da imunização em massa, a cada três anos eram registradas epidemias de sarampo que chegaram a causar 2,6 milhões de mortes, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Uma das prioridades do Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973, era vacinar crianças e adolescentes de 9 meses a 14 anos para alcançar uma ampla cobertura. A doença era tão perigosa que, em 1992, o Brasil iniciou o Plano de Eliminação do Sarampo.
Em 2016, o objetivo finalmente foi alcançado: o país recebeu da OPAS o certificado de erradicação da transmissão endêmica da doença, e passou os dois anos seguintes sem registro de casos. Mas a cobertura vacinal já vinha em queda — no ano em que recebemos o certificado, somente 58,9% dos municípios haviam alcançado a meta de vacinar mais de 95% das crianças (em 2013, o índice chegou a 75%). Resultado: em 2018, foram confirmados 10.346 novos casos da doença; no ano seguinte, o número saltou para 20.901.
A situação piorou desde então. Em 2020, mesmo com as medidas de restrição de circulação para tentar conter o avanço da Covid-19 (e que, consequentemente, diminuíram os surtos de outras doenças infecciosas), o país registrou 8.448 casos e dez óbitos por sarampo, segundo o Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde. Em paralelo, a cobertura vacinal seguiu em queda: foi de 93,1% em 2019 para 71,49% no ano passado.
“Ter pessoas morrendo de sarampo chega a beirar o absurdo, pois existe uma vacina segura e eficaz contra a doença”, afirma a pediatra e infectologista Cristiana Meirelles, coordenadora médica da Healthtech Beep Saúde. “Mas a doença não foi erradicada, porque no mundo inteiro continuava circulando. E desde 2015 fomos tendo cada vez menos pessoas vacinadas, até em 2018 voltar a ter casos. Para quem não tinha nada, um ou dois casos já é considerado surto. E começa a nos preocupar cada vez mais.”
Por MARÍLIA MARASCIULO /Galileu
