Pobreza precisa ser enfrentada e bilionários devem pagar ‘justas contribuições em impostos’, diz Haddad no G20

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O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse na abertura da reunião dos ministros das Finanças do G20, que começou nesta quarta-feira em São Paulo, que a pobreza e a desigualdade precisam ser enfrentados como problemas globais e que os países ricos não podem dar as costas ao mundo e focar apenas em soluções nacionais.

Ele defendeu ainda uma tributação mínima global sobre os mais ricos, como havia antecipado ao GLOBO no fim de semana. Haddad fez a abertura de forma remota por ter sido diagnosticado com Covid.

— Precisamos entender as mudanças climáticas e as pobrezas como desafios globais a serem enfrentados. É hora de redefinirmos a globalização. Os temas que a presidência brasileira propôs para essa primeira reunião emergem do objetivo de construir uma nova globalização, centrada na cooperação internacional — afirmou Haddad.

O objetivo do país é promover três temas centrais durante o encontro: combate à fome, luta contra a pobreza e desigualdade; desenvolvimento sustentável; e reforma da governança global. Para isso, duas forças tarefas foram criadas no G20: a Aliança Global Contra Fome e a Pobreza e a Mobilização Global Contra a Mudança do Clima.

Haddad destacou que o não enfrentamento desses temas terá como consequência a ampliação das crises humanitárias e imigratórias, e defendeu que haja uma “nova globalização socioambiental”. O Brasil também quer um alívio no peso da dívida das nações menos desenvolvidas e o aumento da influência dos países emergentes em organizações como o FMI e o Banco Mundial.

‘Crise da globalização’

 

O Brasil ocupa, pela primeira vez, a presidência rotativa do grupo das principais economias do planeta e mais a União Europeia e a União Africana. O G20 foi criado em 1999 após a crise financeira asiática. O G20 representa mais de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, 75% do comércio mundial e dois terços da população global.

Haddad afirmou que há consciência que a conjuntura econômica global é desafiadora e que discursos sobre globalização se alternam entre o otimismo desenfreado e a sua negação. Mas lembrou que o mundo chegou a uma situação em que o 1% mais rico detém 43% da riqueza do mundo e é responsável por emitir a mesma quantidade de carbono que os dois terços mais pobres.

— Não há ganhadores na atual crise da globalização, embora os países mais pobres paguem preços mais altos. Nossa proposta é centrar a desigualdade como variável fundamental para análise de políticas econômicas— disse o ministro, lembrando que os países mais pobres estão com as receitas comprometidas pelo serviço da dívida num cenário de juros elevados no pós-pandemia.

 

Tributação dos mais ricos

 

O ministro observou que atual reação contra a globalização pode ser atribuída a um tipo específico de globalização que prevaleceu até a crise financeira de 2008. Até então, a integração financeira internacional se confundiu com a flexibilização de mercados, a flexibilização das leis trabalhistas, a desregulamentação financeira e a livre circulação de capitais.

— As crises econômicas resultantes causaram grandes perdas socioeconômicas, enquanto a hiper-financerização prosseguiu em ritmo acelerado. Um complexo sistemas ‘offshore’ foi estruturado para fornecer formas cada vez mais elaboradas de evasão tributária aos super-ricos. Essas tendências culminaram nas crise financeira de 2008 e claramente as limitações daquela forma de globalização — avaliou o ministro.

A tributação internacional é outro assunto da pauta dos ministros de finanças num momento em que alguns países querem taxar grandes empresas e os mais ricos. O tema será central na reunião de quinta-feira, segundo Haddad.

— Precisamos fazer com que os bilionários do mundo paguem suas justas contribuições em impostos. Além de avançar nas negociações em andamento na OCDE e na ONU, acreditamos que uma tributação mínima global sobre a riqueza poderá constituir um terceiro pilar para a cooperação financeira internacional — disse o ministro Fernando Haddad.

Também estão na agenda de discussões dos ministros de finanças do G20 temas como inflação, mudança climática e a guerra entre Rússia e Ucrânia, além do conflito no Oriente Médio. Na quinta-feira, serão discutidas ainda as dívidas de países emergentes. Ele acrescentou o “endividamento crônico” deve ser enfrentado para que os países possam ter espaço fiscal para realizar a transição enérgica e o combate à fome.

BCs querem endereçar problema da pobreza

 

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, também falou durante a abertura do encontro e reforçou o papel dos bancos centrais e autoridades monetárias para endereçar o problema da desigualdade e pobreza. Ele lembrou que o controle da inflação e aumento de preços é uma forma de garantir mais bem-estar social para as camadas mais vulneráveis:

— Há diversas evidências de que a inflação afeta negativamente os níveis de pobreza e atinge desproporcionalmente os mais vulneráveis, prejudicando desproporcionalmente os mais vulneráveis e aprofundando as lacunas e desigualdades sociais existentes. A melhor contribuição de política monetária para o crescimento sustentável, redução do desemprego e melhora das condições vida da população é manter a inflação baixa, estável e previsível — afirmou.

Campos Neto acrescentou que os bancos centrais têm se mantido comprometidos a alcançar a estabilidade de preços em linha com seus respectivos mandatos, depois da subida da inflação global que veio na esteira de políticas monetárias expansionistas, em razão da Covid-19. Ele ponderou, no entanto, que ainda há progressos a serem feitos na redução da inflação e uma “última milha” a ser perseguida.

O presidente do BC reforçou a necessidade de o G20 avançar com a agenda prioritária proposta pela presidência brasileira, com foco no combate à pobreza e no desenvolvimento sustentável. Ele citou ainda o papel “crucial” da inclusão financeira “para crescimento econômico e avanços sociais”.

— Sob a presidência brasileira do G20, a inclusão financeira será um pilar central para promoção do desenvolvimento e reduzir desigualdade, com a GPFI (Parceria Global para Inclusão Financeira, plataforma do G20) dando uma importante contribuição para o objetivo geral de construir um mundo justo e um planeta sustentável — acrescentou.

Autoridades presentes

 

Participam também do encontro os presidentes dos Bancos Centrais do G20, além da secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, e a diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva.

Entre as ausências, segundo os organizadores, estão os ministros das Finanças da China, Índia, Rússia e Reino Unido.

O encontro de ministros das Finanças do G20 foi precedido por uma reunião de nível vice-ministerial, na segunda e terça-feira, descrita por autoridades brasileiras como uma “preparação de terreno” para a cúpula envolvendo o primeiro escalão das pastas de economia.

De acordo com a secretária de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Tatiana Rosito, que coordena a Trilha das Finanças do G20, o encontro com os deputies foi concluído na tarde de ontem com o encaminhamento da parte econômica do comunicado final da reunião, que será apreciado pelos ministros e presidentes dos BCs nos próximos dias. Em um briefing anterior à imprensa, Rosito já havia antecipado que o texto final será mais curto do que o de encontros anteriores.

— As prioridades brasileiras seguem sendo não só bem recebidas, mas agora caminhando alguns graus para implementação — disse Rosito em conversa com a imprensa.

Na sessão de abertura da reunião de ministros desta quarta, o painel será destinado para discutir desigualdades de renda e suas implicações para políticas macroeconômicas.

Por Juliana Causin, Renato Vasconcelos e João Sorima Neto, O Globo — São Paulo

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