Saiba quem é o miliciano Peixe, que intermediou recursos de emenda parlamentar de Flávio Bolsonaro para ONG

0
flavio

 

 

Homem de confiança de Domingos Brazão, ex-assessor da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), Robson Calixto da Fonseca, o Peixe, construiu ao longo dos anos uma trajetória que misturou atuação política e ligações com a milícia. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a nove anos de prisão por integrar a organização criminosa envolvida no caso Marielle Franco, ele aparece agora em outra investigação da Polícia Federal. Peixe intermediou, segundo a PF, recursos de uma emenda parlamentar de R$ 200 mil do senador Flávio Bolsonaro (PL) destinada a uma ONG investigada por suspeitas de desvio de dinheiro público.

O beneficiário foi o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), que recebeu, além da verba indicada por Flávio, R$ 300 mil da deputada federal Chris Tonietto (PL-RJ) e R$ 1,5 milhão do então deputado federal Chiquinho Brazão. Os R$ 2 milhões são os únicos recursos públicos recebidos pela entidade até hoje.

A atuação de Peixe na obtenção das verbas aparece em mensagens extraídas de seu celular, apreendido pela Polícia Federal durante a investigação sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Segundo a investigação, cabia ao ex-assessor procurar deputados e senadores para tentar direcionar emendas a entidades indicadas por ele.

Em outubro de 2023, Peixe procurou Maria de Fátima Bezerra, assessora de Flávio Bolsonaro conhecida como Fafá. “Amiga, vê com o nosso senador se consegue nos ajudar”, escreveu. A assessora respondeu convidando-o para um evento em que Flávio estaria presente no Rio e pediu que ele levasse Chiquinho Brazão. “Você vai também e reforça o pedido com o senador”, escreveu ela.

Dias depois, Peixe voltou a cobrar a assessora. “Não esquece do Ifop não, vê se o senador consegue nos agraciar”, afirmou. A emenda de R$ 200 mil foi enviada no mês seguinte, em 29 de novembro de 2023. Os recursos deveriam financiar a compra de chuteiras para um projeto esportivo voltado a crianças.

A Polícia Federal investiga se a verba destinada ao Ifop fez parte de um esquema de desvio de recursos públicos ligado à família Brazão e a pessoas de seu entorno. A apuração, realizada em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU), mira suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Uma operação realizada em julho teve entre os alvos as emendas de Flávio Bolsonaro e de Chris Tonietto.

Homem de confiança de Brazão

 

A relação de Peixe com os irmãos Brazão, porém, é antiga. Ele integrou a equipe de assessores de Domingos Brazão na Alerj e continuou trabalhando com o político quando ele se tornou conselheiro do TCE-RJ. Para a Procuradoria-Geral da República (PGR), Calixto atuava como uma espécie de operador do grupo.

Na investigação do caso Marielle, a PGR afirmou que Peixe funcionava como intermediário das conexões mantidas pela organização criminosa. O órgão também apontou que ele tinha envolvimento direto na gestão de negócios imobiliários irregulares e atuava como procurador informal e “laranja” dos irmãos Brazão.

O nome de Peixe também apareceu em informações encaminhadas ao Disque-Denúncia em 2018. Segundo relatório da Polícia Federal, ele era apontado nesses relatos como responsável por arrecadar dinheiro obtido por meio de extorsões praticadas por um grupo de milicianos que atuava na região da Taquara, na Zona Sudoeste do Rio.

Em sua delação premiada, Ronnie Lessa, assassino confesso de Marielle e Anderson, descreveu Peixe — também chamado de “Peixão” — como “homem de confiança” e “faz tudo” de Domingos Brazão. Lessa afirmou ainda que o ex-assessor atuou como interlocutor dos irmãos Brazão durante os preparativos para o assassinato e atribuiu a ele a obtenção da submetralhadora HK MP5 usada no crime.

Peixe foi preso em maio de 2024. Em fevereiro deste ano, a Primeira Turma do STF concluiu que ele integrava uma organização criminosa armada ao lado dos irmãos Brazão. Diferentemente de Domingos e Chiquinho, Peixe não foi condenado pelos homicídios de Marielle e Anderson, mas pelo crime de organização criminosa. A pena fixada foi de nove anos de prisão.

Emendas sob investigação

 

As suspeitas envolvendo o Ifop não se restringem à atuação de Peixe. A entidade recebeu em 2023 as emendas indicadas por Flávio Bolsonaro e Chris Tonietto. Já a verba de R$ 1,5 milhão indicada por Chiquinho Brazão, destinada a um projeto de capacitação de mulheres com aulas de informática na Baixada Fluminense, só foi liberada em 2025, depois da prisão do ex-deputado.

No projeto Jogadores do Futuro, beneficiado pela emenda de Flávio, pais de alunos afirmaram que seus filhos não receberam as chuteiras previstas no termo de fomento. Também não houve confirmação da entrega de materiais no projeto Vencedores do Futuro, financiado pela emenda de Chris Tonietto.

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) também identificou suspeitas de irregularidades nas compras feitas pelo Ifop com a verba indicada por Flávio. Segundo o relatório, a entidade não buscou condições mais vantajosas para aplicar os recursos nem demonstrou preocupação com economia ou eficiência nos gastos.

Procurada, a assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou que a emenda “foi destinada dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte”. Segundo o candidato à Presid, a responsabilidade pela execução dos recursos cabe à entidade beneficiária, e eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle.

O Ifop, por sua vez, disse desconhecer a atuação de Robson Calixto na obtenção da emenda de Flávio e afirmou não manter relações com Peixe nem com a família Brazão. A entidade declarou que contratou, em 2022, uma assessoria especializada em gestão de projetos e apresentação de propostas a parlamentares e que visitou gabinetes da Câmara e do Senado.

Chris Tonietto afirmou que integrantes de sua equipe visitaram as instalações da ONG antes da destinação dos recursos e acompanharam posteriormente a realização do projeto. A deputada declarou não ter participado da escolha de fornecedores, da definição de preços, das contratações ou dos pagamentos e afirmou defender a apuração de eventuais irregularidades.

Por O Globo — Rio de Janeiro

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *