Seleção sai das Eliminatórias melhor do que entrou e deixa herança para próximos jogos
Vitórias contra adversários fracos apresentam novas alternativas e esboço de modelo de jogo para Dorival Júnior
A tabela deu uma força. Os dois jogos do Brasil nestas rodadas das Eliminatórias foram justamente contra os dois últimos colocados. A fragilidade dos adversários impunha uma espécie de ultimato à Seleção: havia dois caminhos, o do alívio e o da crise, e o time soube escolher o certo. Como consequência, saiu da Data Fifa melhor do que entrou.
As vitórias sobre Chile (2 a 1) e Peru (4 a 0) não devolveram o Brasil ao patamar do passado, não fizeram nenhum adversário tremer de medo mundo afora. Mas tiveram alguns efeitos práticos: elevaram a Seleção a um espaço mais confortável na tabela (o quarto lugar, com 16 pontos, quatro à frente da Bolívia, a primeira fora da zona de classificação direta à Copa do Mundo de 2026) e permitiram que Dorival Júnior dormisse mais tranquilo. A pressão sobre o treinador começava a se avolumar.
O principal, porém, esteve dentro de campo. Os dois jogos serviram para apresentar novas possibilidades a uma equipe que afundava na areia movediça e parecia não fazer nada para sair de lá. Dorival mexeu na cara do elenco (uma série de lesões contribuiu para isso) e no jeito de o time jogar. Teve boas respostas nos dois quesitos.
Alguns jogadores aproveitaram o período para se fortalecer na Seleção. Igor Jesus entrou de vez na briga para ser o centroavante. Endrick vai amadurecer, e tomara que Pedro volte bem da lesão, mas surgiu mais uma opção. E Luiz Henrique, o melhor jogador atuando dentro do Brasil no ano, pede passagem como titular. Fez um gol contra o Chile e repetiu a dose contra o Peru, acrescentando ao repertório o cruzamento para o golaço de Andreas Pereira. Está voando.
Os jogos também serviram para Dorival apostar em uma mudança tática. O treinador desfez a trinca de meias mais marcadores, usada nas partidas anteriores, e investiu em um quarteto ofensivo, sustentado por três jogadores leves, ágeis: Raphinha, Rodrygo e Savinho. Isso melhorou a equipe e deve ficar de herança para os próximos jogos.
O desempenho ainda é tímido – só foi animador em parte do segundo tempo contra o Peru. Dorival tem muitas decisões a tomar: quem deve ser o lateral-direito e como ele deve jogar; quais são os jogadores capazes de dar sustentação ao meio sem deixar o time robótico na saída de bola. Mas há um esboço de modelo no qual apostar.
Com o retorno de jogadores lesionados, sobretudo Vini Jr (e quem sabe Neymar em um futuro breve), a grande missão para Dorival será manter essa forma de jogar funcionando independentemente das peças – e da qualidade dos adversários.
