Tite critica organização e diz que grupo pediu para Brasil não sediar Copa América: “Ficamos à mercê”

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Por Bruno Cassucci e Raphael Zarko — São Paulo e Brasília

O técnico da seleção brasileira masculina de futebol, Tite, revelou que os jogadores pediram para que a Copa América não fosse disputada no Brasil. Ao lado de César Sampaio, o treinador participou de entrevista coletiva e contou que a manifestação foi levada diretamente ao presidente da CBF, Rogério Caboclo, antes da Conmebol definir a sede brasileira.

– Pedimos antes ao presidente da CBF. Eu pedi, os atletas pediram, o Juninho pediu antes de ela ser definida que ela fosse no Brasil. Antes, nós pedimos antes. Nós fomos leais e pedimos antes. Antes de levar ao presidente da República, ao país, colocamos essa situação que não gostaríamos, pelo respeito, por tudo o que estava envolvendo, por um lado sentimental. Ficamos à mercê, pediram tempo para nós, aí a situação ficou definida e ficamos expostos. Esse é o real, o que acompanhei em relação a essa situação toda. Então decidimos nos manifestar de forma conjunta, mas já que ela foi definida, temos orgulho do nosso País, de representar a Seleção, eu tenho orgulho de ser técnico da Seleção – comentou o treinador da Seleção.

O técnico não poupou críticas à organização da competição, mas deixou claro que nada vai servir de desculpas. O Brasil vai jogar para vencer o campeonato, embora tenha sua posição de oposição a como tudo se definiu, com diversos problemas até a definição da sede.

– Quando um campeonato é feito de forma atabalhoada, rápida, excessivamente como a Conmebol fez, ela está sujeita a isso. E vai mudar de novo. Vai modificar de novo. Independentemente do país que fosse – comentou o treinador.

“Não tem muleta”

 

Em entrevista mais contundente do que as habituais, Tite disse que depois de definida a competição, acabou a discussão dentro da Seleção. A ordem é: ganhar e seguir o ritmo de preparação para as Eliminatórias e para a Copa do Mundo de 2022. Nas palavras de Tite, “não tem autosabotagem”.

– Colocamos que somos contrários à realização da Copa América e não vai ter desculpa agora. Não tem bengala, muleta. Vai jogar. Vamos nos cuidar da melhor maneira possível e vamos jogar com a exigência. (Disse a eles:) “o técnico vai cobrar, vocês vão nos cobrar a nossa performance, porque é essa nossa responsabilidade, foi isso o que optamos” – completou o treinador.

Caboclo conversa com Clodoaldo, observado por Tite e Cafu: técnico da Seleção disse que pediu para Brasil não sediar a Copa América — Foto: Genito Junior

Caboclo conversa com Clodoaldo, observado por Tite e Cafu: técnico da Seleção disse que pediu para Brasil não sediar a Copa América — Foto: Genito Junior

Alvo de apoiadores de Jair Bolsonaro por susposta posição política a favor da oposição, o treinador tentou deixar claro que em momento algum a manifestação do grupo teve qualquer outro tom a não ser aquele da nota divulgada após a vitória sobre o Paraguai.

– Gostaria que não tivesse esses problemas todos, não só com a Venezuela. Isso aqui não tem viés político nenhum, isso aqui tem uma crítica direta à Conmebol e a quem decidiu da CBF ser a Copa América aqui. Ela (a crítica) não tem viés político e eu tenho um respeito muito grande a tudo isso e à minha história. Eu não tenho partido político nenhum ao longo da minha trajetória, não tenho, sempre votei em pessoas, não partidos, por isso me sinto em paz para falar. Politizaram essa situação, infelizmente politizaram – afirmou o treinador da Seleção.

“Assédio não”

 

Sem paralisação da Copa América em 2021, o técnico Tite foi questionado sobre os problemas que a competição provocam nos clubes que disputam o Campeonato Brasileiro. O Flamengo entrou com liminar na tentativa de parar a competição. O STJD não deferiu o pedido, mas o caso vai para o Pleno.

– O calendário precisa ser ajustado. Como? Não sei. Talvez todas essas situações precisem de um ajuste maior ao longo do tempo, e talvez a premissa básica desse calendário universal possa trazer os ajustes inclusive nacionais. Toda ponderação é justa – afirmou o treinador da Seleção.

Lembrado sobre a manifestação pública e firme da seleção feminina, que entrou com faixa contra o assédio e divulgou nota, o treinador da Seleção repetiu a mensagem da faixa – “Assédio não” – e destacou a coragem da denúncia da funcionária.

– Eu tenho uma opinião e vou repeti-la. O fato é gravíssimo. Assédio não! Tenho respeito à coragem da funcionária por um assunto tão difícil ser exposto. Eu torço para que a Justiça de todos os envolvidos venha de forma clara e justa – repetiu o treinador.

“Somos privilegiados”

 

No fim da coletiva, o treinador disse que “que não tem preto e branco, existe o cinza, a seleção brasileira”, referindo-se às questões polarizadas em que se sentiu neste momento do País. Por exemplo, a sede da Copa América brasileira.

– Diferente da sociedade, nós somos privilegiados. Não me sinto confortável, por vezes, por não ser a relação que a sociedade tem no seu geral, porque sou privilegiado. Estou toda hora sendo testado, estou toda hora me cuidando. Não me sinto incomodado em relação ao futebol, porque a seleção é privilegiada nesse aspecto.

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