Messi e Modric: dois jeitos diferentes de ser camisa 10
Mapa de passes dos dois craques revelam papéis diferentes em campo e o mesmo número mítico na camisa
Não há futebol sem o 10. O ditado, muitas vezes cantado em estádios argentinos, será cantado a todos os pulmões pelas duas torcidas na primeira semifinal da Copa do Mundo, entre Argentina e Croácia, às 16h (de Brasília), no estádio Lusail.
Afinal, o jogo terá em campo dois dos melhores camisas 10 da atualidade: Lionel Messi na Argentina e Luka Modric na Croácia.
Os dois possuem semelhanças apenas no status de estrela e no número da camisa. Em campo, jogam de formas muito diferentes. Mostram que a tão mítica camisa 10, dada normalmente ao melhor jogador do time em campo, pode brilhar de diferentes maneiras dentro do jogo.
Messi: camisa 10 mais “terminal”, que cria e finaliza
Talvez o grande jogador dessa Copa do Mundo, Messi é um camisa 10 mais “terminal”. Ele atua numa faixa de campo mais próxima do gol e tem como missão criar jogadas para os companheiros ou aproveitar espaços para finalizar ao gol. É o que os argentinos chamam de “enganche” e são especialistas em revelar: Maradona, Riquelme e “la pulga” jogam quase que da mesma forma.
Veja o mapa de passes de Messi nos confrontos eliminatórios contra a Austrália e a Holanda. A maioria dos passes tem origem no lado direito do campo, região que o craque gosta de atuar. Os toques têm direção para o centro do campo, onde Messi encontra Julián Alvaréz, MacAllister e Di Maria.
Messi toca a bola mais pelo setor direito e passa por dentro — Foto: Reprodução
O passe qualificado, o drible certeiro e a visão de jogo única de Messi servem ao time por conta da formação tática pensada por Lionel Scaloni: uma equipe que atua para deixar o craque à vontade.
Quando a Argentina tem a bola, Messi não retorna tanto. Quem leva a bola até o ataque é Enzo Fernandéz. Ele joga quando a bola entra mesmo no campo de ataque e principalmente no terço final do campo. É quando MacAllister e De Paul se movimentam para gerar opções na sua frente. Os laterais abrem para alargar o campo, e Alvaréz se movimenta. No gol contra a Holanda, De Paul cobre o avanço de Molina, que tabela por dentro.
Messi: criador de jogadas para o gol na Argentina — Foto: Reprodução
Modric: camisa 10 que pensa de trás e organiza jogadas
Aos 37 anos e vivendo o auge na carreira, Modric é um camisa 10 mais cerebral e organizador. Ele atua numa faixa de campo entre a defesa e o aatque e tem como missão organizar jogadas e colocar o ataque para correr. É o que os brasileiros chamariam de camisa 8, um armador num antigo 4-2-4. Impossível não comparar a Ademir da Guia ou Didi.
Veja o mapa de passes de Modric. Há toques por todo o lado do campo, mas mais afastados da grande área. Os passes se concentram no círculo central, onde é feita a ligação entre a defesa e o ataque. Veja como há toques do centro para o lado: é como Modric distribui o jogo para Pasalic e Peresic, ou quando vê espaço, emenda uma trivela ao ataque.
Modric joga por todo o campo e distribui jogadas — Foto: Reprodução
Modric também tem uma capacidade imensa de algo que é cada vez mais importante num jogo em que a pressão é cada vez mais alta e constante: ele consegue clarear o jogo.
É o que os treinadores chamam de “tirar da pressão”. Funciona assim: Modric recebe a bola e é pressionado por dois ou até três adversários. Só que ele recebe a bola já preparado para “enganar” essa pressão e conectar um companheiro livre. O efeito disso é que a Croácia consegue atacar com superioridade numérica e espaço para chegar livre no ataque.
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Modric: capacidade de tirar da pressão fez a diferença contra o Brasil — Foto: Reprodução
- Você não ficou com a impressão que o Brasil pressionou mal? Que a bola era “escondida” de Richarlison, Vini e Neymar? O motivo é justamente essa tirada da pressão de Modric.
- E na Argentina, você não tem a expectativa de que Messi irá criar alguma coisa toda vez que a bola chega nele? Experimente olhar como o time se movimenta para gerar opções de jogo ou como Alvaréz tira adversários para abrir espaço.
Tudo isso porque são dois craques do improviso, da magia e do futebol coletivo. Dois camisas 10 muito diferentes que irão manter viva a mítica do número mais importante do futebol na final da Copa do Mundo.
Por Leonardo Miranda

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